Esoterismo

Mantra

O Mantra (sânscrito मन्त्र, de man- «pensar» e -tra «instrumento») é, literalmente, um «instrumento da mente»: som, sílaba, palavra ou fórmula que, repetida com atenção, transforma o estado mental e abre o praticante a dimensões mais subtis da consciência. O mantra não é uma simples oração nem um conjuro mágico, embora possa partilhar traços de ambos. É um śabda (som) carregado de potência espiritual, transmitido tradicionalmente de mestre a discípulo. As tradições hindu, budista, jainista e sikh fizeram do mantra um pilar da prática espiritual.

Origem

Os primeiros mantras documentados são os ṛc (hinos) do Rig-Veda, compilados em sânscrito védico entre 1500 e 1200 a.C., recitados pelos brâmanes nos rituais do fogo (yajña). A teoria do mantra foi sistematizada nas Brāhmaṇas, nos Upaniṣads e, mais tarde, nos Tantras (a partir de cerca do séc. VI d.C.). A escola filosófica Mīmāṃsā defendia a eternidade do som védico: cada mantra é um aspeto eterno do real, e a sua pronúncia correta atualiza, no aqui e agora, uma realidade cósmica.

O budismo herdou e transformou a tradição: os dhāraṇī e mantras do budismo mahayana e vajrayana são centrais nas práticas tibetanas, chinesas e japonesas. O OM MAṆI PADME HŪṂ tibetano, o NAMU AMIDA BUTSU do budismo da Terra Pura, o NAM-MYŌHŌ-RENGE-KYŌ de Nichiren são exemplos. No Ocidente, a Meditação Transcendental de Maharishi Mahesh Yogi (a partir de 1958) popularizou o uso individual de mantras secretos. Em paralelo, o canto coletivo de mantras (kīrtan) tornou-se prática difundida em centros de yoga.

Tipos de mantra

Distinguem-se vários tipos. Os bīja mantras («sementes») são monossílabos não-semânticos como LAM (raiz), VAM (sacro), RAM (plexo solar), YAM (coração), HAM (garganta), KṢAṂ (terceiro olho), OM (coroa). O OM ou AUM é o som primordial, presente já nos Upanishads como vibração originária do universo. Os nāma mantras repetem nomes divinos (Rāma, Kṛṣṇa, Śiva). Os guru mantras são transmitidos por iniciação. Os śloka mantras são versos compostos (como o Gāyatrī, atribuído ao sábio Viśvāmitra).

A repetição (japa) pode ser feita em voz alta (vācika), em sussurro (upāṃśu) ou apenas mental (mānasika), sendo esta última considerada a mais potente. Usa-se um rosário (mālā) de 108 contas — número sagrado que combina o 9 (totalidade) e o 12 (signos) ou que multiplica três energias (3 guṇas) por trinta e seis aspetos. Vinte minutos de japa silencioso, segundo Maharishi, induzem mensuravelmente um estado de relaxamento profundo, com alterações eletroencefalográficas distintas do sono e da vigília.

Na prática

Para começar com o mantra, escolhe uma sílaba simples. O OM é o mais universal: senta-te com as costas direitas, fecha os olhos, inspira pelo nariz, e na expiração entoa AAAA-UUUU-MMMM, sentindo a vibração descer da cabeça ao ventre. Faz três a sete repetições e fica em silêncio a observar o eco interior. Outra prática acessível é o So-Ham (ou Hamsa): inspirando, ouve interiormente «SO»; expirando, «HAM». Significa «eu sou Aquilo», a fórmula vedântica não-dual.

Atenção a três princípios. Primeiro, a regularidade conta mais do que a intensidade: dez minutos diários durante meses superam horas esporádicas. Segundo, a atenção ao som é o essencial: não tentes esvaziar a mente, mas regressa ao mantra sempre que percebes que te dispersaste. Terceiro, a relação com a tradição: mantras tântricos potentes não se devem usar sem orientação. Ver também Meditação, Yantra e Chakra. Mais no Glossário.

Profundidade simbólica

O mantra repousa numa metafísica do som: o universo é, na sua essência, vibração. Esta intuição encontra eco na física contemporânea (matéria como vibração de campos quânticos) e em outras tradições espirituais. O Génesis abre-se com «Disse Deus: faça-se a luz»; o evangelho de João começa «No princípio era o Verbo»; os sufis falam do kalimah (palavra divina). Em todas estas tradições, o som criador precede o real e estrutura-o. Pronunciar um mantra é, simbolicamente, repetir o gesto cósmico originário num plano íntimo.

No tarô, o Mago — primeiro arcano — é figura do verbo eficaz: aquele que nomeia e faz acontecer. Na Cabala, as 22 letras do alfabeto hebraico correspondem às 22 vias da Árvore da Vida — e o uso litúrgico das letras divinas (tetragrama YHWH, nomes dos 72) é o equivalente cabalístico do mantra. Na numerologia, o 108 do mālā é dos números mais densos de simbolismo. Pronunciar é criar; repetir é estabilizar uma realidade.

Também conhecido como

  • fórmula sagrada
  • sílaba semente
  • japa
  • invocação
  • som sagrado

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