Sephiroth
As Sephiroth (hebraico סְפִירוֹת, plural de sephirah, «numeração», «esfera», «contagem») são, na Cabala, as dez emanações ou atributos pelos quais o Infinito (Ein Sof) se manifesta no universo e se torna conhecido. Não são partes de Deus nem entes separados, mas modos como a unidade divina se exprime e atua. Dispõem-se na Árvore da Vida em três colunas e formam o sistema simbólico central da mística judaica. Da mais alta à mais baixa: Keter, Chokhmah, Binah, Chesed, Gevurah, Tiferet, Netzach, Hod, Yesod, Malkhut.
Origem
O termo sephirah aparece pela primeira vez no Sefer Yetzirah («Livro da Formação», sécs. II-VI d.C.), que afirma: «Dez Sephirot de nada e vinte e duas letras: três mães, sete duplas, doze simples». Nesta obra, as dez Sephirot são números puros (de zero a nove) e dimensões cósmicas (alto, baixo, leste, oeste, norte, sul, princípio, fim, bem, mal). A interpretação posterior — sobretudo a partir do Bahir (séc. XII) e do Zohar (séc. XIII) — transformou-as em atributos divinos com nomes e personificações.
Os cabalistas castelhanos e provençais do séc. XIII (Isaac, o Cego; Azriel de Gerona; Moisés de Leão) fixaram os dez nomes que se tornaram canónicos. A escola de Safed, no séc. XVI, com Moisés Cordovero (Pardes Rimonim, 1548) e Isaac Luria, refinou a doutrina, introduzindo conceitos como o tsimtsum (retração divina que abre espaço à criação), o shevirat ha-kelim (rutura dos vasos das Sephirot inferiores que originou o mal cósmico) e o tikkun (reparação). A Cabala cristã renascentista (Pico, Reuchlin) e a tradição hermético-cabalística inglesa (Golden Dawn, Dion Fortune) divulgaram o sistema no esoterismo ocidental.
As dez Sephiroth
Por ordem descendente: 1. Keter (Coroa, a primeira luz divina, a vontade pura, identidade absoluta); 2. Chokhmah (Sabedoria, masculino, raio criativo, intuição); 3. Binah (Inteligência, feminino, mãe que estrutura, compreensão); 4. Chesed (Misericórdia, expansão, generosidade, amor); 5. Gevurah (Rigor, contração, justiça, limite); 6. Tiferet (Beleza, equilíbrio, coração da Árvore, harmonia entre Chesed e Gevurah).
Continuando: 7. Netzach (Vitória, vida instintiva, paixão, durabilidade); 8. Hod (Esplendor, intelecto, comunicação, forma); 9. Yesod (Fundamento, conexão, sexualidade, base astral); 10. Malkhut (Reino, manifestação, matéria, presença divina no mundo, Shekhinah). Cada Sephirah tem um nome divino próprio, um arcanjo, uma ordem de anjos, um corpo celeste e um símbolo. Por exemplo, Tiferet: nome divino «YHWH Eloah va-Da'at», arcanjo Rafael, anjos Malachim, corpo celeste o Sol, símbolo o cubo, atributo o coração.
Na prática
A meditação nas Sephiroth pode fazer-se de várias formas. Contemplação sephirótica: dedica-se um dia, uma semana ou um mês a cada Sephirah, vivendo conscientemente as suas qualidades. A semana entre Pessach e Shavuot (sete semanas, sete dias, 49 dias) é tradicionalmente assim ordenada: cada dia ativa uma combinação das sete Sephiroth inferiores (sefirat ha-omer). Visualização: cada Sephirah associa-se a uma cor (segundo a escala da rainha, da Golden Dawn): Keter-branco, Chokhmah-cinzento, Binah-negro, Chesed-azul, Gevurah-vermelho, Tiferet-amarelo-dourado, Netzach-verde, Hod-laranja, Yesod-violeta, Malkhut-quadricolor.
A oração nas Sephiroth dirige cada intenção à esfera apropriada: pedidos de cura a Tiferet ou Yesod, de prosperidade a Netzach, de proteção a Gevurah, de inspiração a Chokhmah. Práticas avançadas incluem o tikkun luriano (recolher as faíscas divinas dispersas após a rutura dos vasos), a meditação nos nomes divinos correspondentes a cada Sephirah, e o trabalho com a Shekhinah (presença divina feminina, manifestação de Malkhut). Ver também Árvore da Vida, Cabala e Gematria. Mais no Glossário.
Profundidade simbólica
As Sephiroth representam, simbolicamente, a articulação entre o uno e o múltiplo. Como pode o Infinito sem nome tornar-se um mundo finito? A resposta cabalística é: emanando-se em modos (as Sephirot), que sem deixarem de ser Deus permitem a Deus relacionar-se com o que não é Deus. Esta resposta tem afinidades com a teologia trinitária cristã, com a doutrina neoplatónica das hipóstases (Uno, Nous, Alma) e com a noção hindu dos guṇas. A diferença é que as Sephirot são dez — número simbolicamente denso — e mantêm dinâmica dramática (a rutura dos vasos introduz a contingência no coração do divino).
No tarô, as dez Sephirot correspondem aos números das cartas menores (1-10) em cada naipe; e os 22 caminhos correspondem aos Arcanos Maiores. Na astrologia, sete planetas tradicionais ocupam Chesed (Júpiter), Gevurah (Marte), Tiferet (Sol), Netzach (Vénus), Hod (Mercúrio), Yesod (Lua), Malkhut (Terra); os três superiores (Keter, Chokhmah, Binah) correspondem aos «exteriores» modernos (Plutão, Neptuno, Saturno em chave esotérica). Na numerologia, o 10 é o regresso ao 1: o todo recomeça. Daí o sentido: percorrer as Sephirot é refazer o caminho que vai do Uno ao mundo, e do mundo de volta ao Uno.
Também conhecido como
- sefirot
- esferas divinas
- emanações
- numerações sagradas
- atributos divinos