Mântica

Necromancia

A Necromancia (grego nekrós, morto, e manteia, adivinhação) é a arte adivinhatória que procura obter conhecimento sobre o futuro, o oculto ou questões existenciais consultando os mortos — evocando-lhes a sombra, o espírito ou uma manifestação parcial — através de rituais, invocações e técnicas variadas. É uma das mais antigas e mais condenadas formas de divinação: praticada na Mesopotâmia, no Egipto, na Grécia homérica, ridicularizada por Cícero, proibida pela Bíblia hebraica (Dt 18, 10-12) e pela Igreja medieval. Reapareceu nos séculos XVIII-XIX sob a forma do espiritismo moderno (Kardec, irmãs Fox, Conan Doyle).

Origem

A cena necromântica mais célebre da Antiguidade é a de Saul e a feiticeira de En-Dor (1 Samuel 28): o rei de Israel, à véspera da batalha desastrosa de Gilboa, procura uma pythonissa que faça subir o espírito do profeta Samuel para o consultar. O episódio é simultaneamente exemplar e proibido: a Lei mosaica (Lv 19,31; Dt 18,10-12) condena explicitamente a consulta aos mortos, mas o texto bíblico narra a cena com força dramática. Em Homero (Odisseia, canto XI), Ulisses desce ao Hades para consultar Tirésias — modelo arquetípico de katábasis necromântica.

Em Roma, Lucano (Pharsalia, livro VI) descreve a necromancia da bruxa tessália Erichto que ressuscita um soldado morto para Sexto Pompeio. Apuleio relata em Metamorfoses as práticas das bruxas. Cristianismo medieval: a necromancia foi a forma mais grave de magia condenada — não só por consultar os mortos, mas por insinuar pacto com o demónio que «se faria passar» por morto invocado. Tomás de Aquino dedica artigos da Summa ao tema (II-II, q. 95). Renascimento: João Wier, Reginald Scot, Cornelius Agripa discutem-na com escrúpulos. Espiritismo moderno: a partir das irmãs Fox em Hydesville (Nova Iorque, 1848) e do livro de Allan Kardec Le Livre des Esprits (1857), a comunicação com os mortos volta a ser tema central, agora em moldura paracientífica.

Métodos antigos e modernos

Os métodos antigos incluíam: invocação ritual sobre o túmulo (necromancia per tumulos); sacrifício de sangue (o sangue alimentava as sombras, dando-lhes voz, como em Homero); descida ritual a um oraculum mortuorum (cavidade subterrânea ou caverna, como o Necromanteion de Éfira no Epiro grego, cujas ruínas foram escavadas no séc. XX); evocação por nome em local consagrado; uso de ossos, sobretudo crânios, como mediadores. Estes rituais eram nocturnos, em local de fronteira (cemitério, cruzamento, costa), e exigiam preparação ritual extensa do operador (jejum, abstinência, vestes pretas).

Os métodos modernos espíritas substituem o sangue e os túmulos por dispositivos mais «limpos»: mesa girante (Kardec, séc. XIX); copo sobre alfabeto Ouija (jogo patenteado em 1891 nos EUA); escrita automática (médium escreve em transe); voz directa (médium presta voz ao espírito); EVP — electronic voice phenomena (gravações áudio de alegadas vozes de mortos, popularizadas por Konstantin Raudive nos anos 1970). Estes métodos foram amplamente investigados por sociedades de pesquisa psíquica (SPR Londres, 1882) com resultados controversos. O cinema e a literatura de horror (de M.R. James a The Sixth Sense) exploraram poderosamente o tema.

Na prática

A prática necromântica é, de todas as mancias, a que exige mais prudência psicológica: o terreno emocional da relação com os mortos (luto, culpa, anseio, projeção) torna a operação delicada. Conselho geral: distingue luto trabalhado (que pode incluir diálogo interior com o falecido como técnica psicológica saudável) de necromancia ritual ativa (que pode reabrir feridas e fomentar dependência). Se quiseres explorar o tema, fá-lo em moldura terapêutica ou em meditação estruturada (vela acesa para o falecido, fotografia, escrita de carta endereçada — sem sessões ouija ou similares).

Os métodos da tradição espiritista (mesa, copo, escrita) são desencorajados por psicólogos e por boa parte das tradições espirituais sérias: produzem com frequência efeito ideomotor de grupo (movimentos inconscientes dos participantes), abrindo porta a sugestão colectiva e a estados emocionais difíceis. Vê Divinação, Oniromancia (sonhos com falecidos), Sincronicidade, /orakel. Hub: /mantik.

Profundidade simbólica

A necromancia interroga o limite mais radical da experiência humana: a morte. A sua persistência ao longo da história — apesar das proibições religiosas e dos cepticismos racionalistas — testemunha um anseio fundo de continuidade do laço. Os mortos não desaparecem completamente: continuam nas memórias, nos hábitos, nos genes, na cultura — e por isso «consultá-los» é, simbolicamente, dialogar com tudo o que neles permanece em nós. Esta dimensão antropológica não exige fé numa sobrevivência ontológica para ter sentido.

Em chave junguiana, os «mortos» que o necromante consulta podem ler-se como conteúdos do inconsciente colectivo: antepassados, herança simbólica, sabedoria transgeracional que se acumula em camadas profundas da psique. Pessoa («Estes ancestrais meus me geraram...») e Rilke (Sonetos a Orfeu) escreveram poeticamente sobre essa presença. A necromancia honesta é, então, técnica de anamnesis — fazer subir à consciência o que descansa em camadas anteriores. O perigo é confundir esta anamnesis com presença real, fenómeno que produz dependência mórbida. Vê Sincronicidade, glossário.

Também conhecido como

  • Nigromancia
  • Espiritismo
  • Sciomancia
  • Adivinhação pelos mortos
  • Evocação

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