Xamanismo
O Xamanismo é a tradição espiritual e terapêutica, original das estepes da Sibéria e da Ásia central, em que um especialista religioso — o xamã (palavra šaman da língua tungue dos Evenques, divulgada por viajantes russos do séc. XVII) — entra deliberadamente em estado alterado de consciência (transe) para mediar entre a comunidade humana e o mundo dos espíritos, viajando à sua «outra realidade» para curar doenças, recuperar almas perdidas, guiar mortos, predizer o futuro e restaurar equilíbrios cósmicos. O grande estudo clássico é Le Chamanisme et les techniques archaïques de l'extase de Mircea Eliade (1951), referência incontornável.
Origem
O xamanismo é, segundo a maior parte dos antropólogos, a tecnologia religiosa mais antiga da humanidade: pinturas rupestres do Paleolítico superior (Lascaux, Chauvet, Trois-Frères) mostram figuras meio-humanas meio-animais que se interpretam como xamãs em transe ritual. A palavra šaman origina-se nas línguas tunguses-manchu, na região do rio Amur e nos territórios circundantes (Evenques, Manchus). Os russos, ao colonizarem a Sibéria a partir do séc. XVII, encontraram-na e divulgaram-na por toda a Europa. Vasili Tatishchev e P. S. Pallas registaram-na nos séc. XVIII e XIX.
A obra que fixou o conceito como categoria universal foi Le Chamanisme et les techniques archaïques de l'extase de Mircea Eliade (1951, traduzido em várias línguas), que comparou rituais siberianos com práticas análogas em civilizações indígenas americanas, africanas, australianas, e em vestígios das religiões greco-romana (Pitágoras, Empédocles) e céltico-germânica (druidas, völvas). A partir dos anos 1960, Mircea Eliade, Michael Harner, Carlos Castaneda e a contracultura americana popularizaram o «neoxamanismo», movimento de revivificação ocidental que adapta técnicas xamânicas a contextos urbanos e terapêuticos contemporâneos — não isento de polémicas sobre apropriação cultural.
O transe e a viagem xamânica
O elemento central é o transe, induzido por técnicas variadas: percussão monótona do tambor (4-7 batidas por segundo, frequência que sincroniza ondas cerebrais theta), canto repetitivo (icaros amazónicos), dança, jejum, isolamento, plantas enteógenas (ayahuasca, peiote, cogumelos psilocíbicos, datura, dependendo da cultura). Em transe, o xamã faz a viagem: a sua «alma» abandona o corpo (que fica protegido pela comunidade) e percorre os três mundos cosmológicos siberianos — mundo superior (céu, deuses, espíritos ancestrais elevados), mundo médio (realidade ordinária vista pelo seu reverso), mundo inferior (caverna, raízes, animais de poder, mortos).
O xamã tem animais de poder ou espíritos auxiliares que o acompanham e protegem. Tem objectos rituais: tambor (cavalo cósmico), espelho metálico no peitoral, casaco com franjas, máscaras, chocalho. Distingue-se do médium espirita por controlar o transe (entra e sai à vontade, lembra) e por viajar (não se limita a ser possuído). Funções sociais: cura (recupera a alma perdida do doente, extrai o «mal» implantado por feitiçaria); psicopompo (acompanha os mortos à outra margem); divinação (responde a questões da comunidade); regulação cósmica (apazigua espíritos da caça, da floresta, dos rios). O xamã é escolhido frequentemente por «chamada» (doença iniciática, sonhos, hereditariedade), e o seu treinamento dura anos.
Na prática
O xamanismo não é, em rigor, mancia a praticar sozinho sem iniciação. As práticas «xamânicas» autênticas exigem tradição viva, mestre, comunidade. O neoxamanismo ocidental, codificado por Michael Harner na Foundation for Shamanic Studies (1979) e em The Way of the Shaman (1980), oferece versões adaptadas: «core shamanism» — viagens xamânicas guiadas por tambor gravado, sem plantas, em moldura terapêutica. Pode ser explorado em workshops sérios e literatura abundante.
Para uma aproximação respeitosa: lê primeiro Mircea Eliade (O Xamanismo), depois antropologia regional (Wade Davis, Jeremy Narby, Carlos Fausto sobre amazónia), e por fim manuais práticos contemporâneos (Sandra Ingerman, Michael Harner). Evita atalhos: não tomes substâncias enteógenas fora de contexto ritual sério; não te apropries de elementos rituais (penas de águia, espigas de salvia) sem entender a sua origem. Vê Divinação, Oniromancia, Necromancia, Sincronicidade, /orakel. Hub: /mantik.
Profundidade simbólica
O xamã é figura arquetípica do mediador: pessoa que circula entre realidades, conhece os dois lados, traduz entre eles. Por isso é frequentemente liminar — homem-mulher (two-spirit, berdache), saudável-doente (a iniciação faz-se via crise física ou psíquica grave), vivo-morto (faz a viagem dos mortos antes de morrer). A doença iniciática xamânica — depressões severas, dissociações, alucinações — foi reinterpretada por Joseph Campbell e Stanislav Grof como possível modalidade transcultural do que a psiquiatria moderna chama «episódio psicótico breve»: crise que, bem acompanhada, abre nova consciência.
Para Mircea Eliade, o xamã encarna a nostalgia do «tempo arcaico», do mundo em que o céu e a terra ainda se comunicavam, antes da queda do illud tempus. Para Jung, é o protótipo do Velho Sábio arquetípico: figura interna que media entre o ego e o inconsciente colectivo, levando informação útil de uma para outra esfera. O xamanismo é, neste sentido, ancestral comum de toda a religião e de toda a divinação ocidentais — incluindo o oráculo da Pítia em Delfos (transe induzido, viagem espiritual, mediação para a comunidade). Vê Oráculo de Delfos e glossário.
Também conhecido como
- Xamanismo siberiano
- Tradição xamânica
- Neoxamanismo
- Xamã
- Curandeirismo tradicional