Tradições

Gnosticismo

O Gnosticismo é o conjunto de correntes religiosas e filosóficas dos primeiros séculos da era cristã (séc. I-IV d.C.), caracterizadas pela ênfase na gnose (γνῶσις, conhecimento revelado) como via de salvação. Para os gnósticos, o mundo material é obra defeituosa de um deus inferior (o Demiurgo) e a alma humana é uma centelha do Pleroma divino prisioneira na matéria, que se liberta pela revelação do verdadeiro conhecimento. Inclui correntes como a valentiniana, a setiana, a basilidiana e textos como o Evangelho de Tomé, o Evangelho de Filipe, a Pístis Sofia.

Origem

O gnosticismo emerge entre o séc. I a.C. e o séc. III d.C. na bacia oriental do Mediterrâneo — sobretudo Alexandria, Síria e Antioquia — na intersecção de várias tradições: o judaísmo helenístico (com a sua especulação sobre a Sabedoria divina), o platonismo médio (dualismo matéria/espírito), o orfismo, o zoroastrismo persa (dualismo cósmico luz/trevas) e o cristianismo emergente. Simão Mago (séc. I, mencionado nos Actos dos Apóstolos) é, segundo a tradição patrística, o «pai das heresias gnósticas».

O auge dá-se no séc. II com mestres como Valentino (c. 100-160, Alexandria, depois Roma), Basilides (Alexandria, séc. II), Marcião do Ponto (séc. II). A Igreja primitiva combateu-os ferozmente: Ireneu de Lyon escreveu Adversus Haereses (c. 180), Hipólito de Roma a Refutatio, Epifânio o Panarion. A descoberta da biblioteca de Nag Hammadi em 1945 — 13 códices em copta com 52 textos gnósticos — revolucionou os estudos, permitindo finalmente ouvir os gnósticos pelos seus próprios escritos, não apenas pelos seus opositores.

Cosmologia e doutrinas

A cosmologia gnóstica valentiniana, a mais elaborada, descreve um Pleroma (Plenitude) divino composto de pares (sizígias) de éons: Pai-Bythos e Mãe-Sigé, Logos-Vida, Homem-Igreja, etc. O último éon, Sofia (Sabedoria), por desejo solitário de conhecer o Pai sem o seu par, cai do Pleroma e gera, sem consorte, um ser imperfeito: o Demiurgo (Yaldabaoth, identificado com o Deus do Antigo Testamento). Este Demiurgo, ignorante da sua origem, cria o mundo material e proclama-se único Deus. A redenção consiste em reconhecer que o verdadeiro Deus é outro, transcendente ao Demiurgo.

A antropologia distingue três tipos humanos: hilicos (materiais, destinados à dissolução), psíquicos (animados, capazes de salvação pela fé) e pneumáticos (espirituais, possuidores da centelha divina e portadores natos da gnose). Cristo, na cristologia gnóstica, é o revelador que desce do Pleroma para trazer aos pneumáticos a memória da sua origem. A salvação é portanto cognitiva: despertar, lembrar, reconhecer. Daí a centralidade dos termos «sono» e «despertar» nos textos gnósticos. Vê Alquimia e Teosofia.

Na prática

Apesar de aparentemente extinto no séc. IV-V, o gnosticismo sobreviveu em correntes derivadas: o maniqueísmo (Mani, séc. III, religião dualista que se expandiu da Pérsia até à China), os paulicianos (Arménia bizantina, séc. VII-IX), os bogomilos (Bulgária medieval) e os cátaros ou albigenses (Languedoc, séc. XII-XIII, exterminados pela cruzada albigense). Renasceu no Renascimento (Pico, Ficino) e novamente no séc. XIX-XX com o ocultismo francês (Eliphas Lévi), a Teosofia de HP Blavatsky, a Antroposofia de Steiner.

A redescoberta de Nag Hammadi (1945) gerou um renovado interesse: novas igrejas gnósticas (Ecclesia Gnostica em Los Angeles), grupos de estudo dos textos, leituras junguianas (Jung escreveu o Septem Sermones ad Mortuos, 1916, pastiche gnóstico) e popularizações (Hans Jonas, Elaine Pagels). Algumas práticas modernas: leitura meditativa do Evangelho de Tomé, exploração ritual das sizígias, meditação sobre o despertar pneumático. Vê Alquimia, Rosacruzes, Teosofia, o glossário e o Tarô.

Profundidade simbólica

O gnosticismo introduziu na história religiosa ocidental uma intuição radical: o mundo tal como o experimentamos não é o melhor dos mundos possíveis nem obra de um deus bom — é falho, opaco, frequentemente cruel. Esta intuição responde ao problema do mal de forma diferente da ortodoxia cristã: não é o homem que caiu, é o cosmos que está estruturalmente desviado. A gnose é o reconhecimento desta condição e a recordação da origem outra. Esta visão ressoa hoje em correntes de pensamento muito diversas: existencialismo, niilismo, certas vertentes da new age, ficção científica (de Philip K. Dick a Matrix).

A relação com a Alquimia é genética: muitos motivos alquímicos (a captura da centelha divina na matéria, a libertação pela transmutação) são heranças gnósticas. A relação com o Tarô é intuitiva: a sequência dos Arcanos pode ler-se como narrativa gnóstica do esquecimento (Louco) ao despertar (Mundo). Jung escreveu que «a alquimia foi o pré-anúncio histórico da psicologia profunda; o gnosticismo foi o seu pré-anúncio teológico». Vê o glossário.

Também conhecido como

  • Gnose
  • Gnosticismo Antigo
  • Cristianismo Gnóstico
  • Doutrina Gnóstica
  • Pensamento Gnóstico

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