Sufismo
O Sufismo (em árabe tasawwuf, تَصَوُّف) é a dimensão mística do Islão, a sua vertente interior e contemplativa. Não é seita separada nem religião à parte: é o esoterismo (bātin) que aprofunda a face exterior (zāhir) da fé islâmica. O nome deriva provavelmente da palavra árabe sūf («lã»), pelos hábitos rudes de lã que os primeiros ascetas vestiam. Tem como objectivo último a fanā (aniquilação do ego em Deus) e a baqā (subsistência transformada em Deus). Os seus mestres mais célebres são Rūmī, Ibn ʿArabī, Hāfiz, Rābiʿa al-ʿAdawiyya e Al-Ghazālī.
Origem
As raízes do sufismo encontram-se na própria vida do profeta Maomé (c. 570-632) e dos seus companheiros mais ascéticos, como Abū Dharr al-Ghifārī e Salman al-Fārisī. Nos primeiros séculos do Islão (séc. VII-VIII), correntes ascéticas em Basora, Cufa e Bagdade desenvolveram disciplinas de pobreza, vigília, recitação intensa do Corão e dhikr (lembrança de Deus). Hasan al-Basri (c. 642-728) e a mística Rābiʿa al-ʿAdawiyya (c. 717-801) são figuras seminais. Rābiʿa formula o amor desinteressado por Deus: «Senhor, se Te adoro por medo do inferno, queima-me; se por desejo do paraíso, exclui-me; mas se Te adoro por Ti mesmo, não me prives da Tua eterna beleza.»
O séc. IX-X é a fase formativa: Al-Junayd de Bagdade (830-910) sistematiza a doutrina da unicidade (tawhīd) experimentada misticamente. Al-Hallāj (858-922) proclama publicamente «Anāʾl-Ḥaqq» («Eu sou a Verdade», isto é, Deus) e é executado por blasfémia, tornando-se mártir do sufismo extático. Al-Ghazālī (1058-1111), grande teólogo, em Iḥyāʾ ʿulūm ad-dīn («Reavivamento das Ciências da Religião») integra sufismo e ortodoxia sunita. Ibn ʿArabī (1165-1240) em Al-Futūḥāt al-Makkiyya e Fuṣūṣ al-ḥikam desenvolve a doutrina da waḥdat al-wujūd (unidade do ser). Jalāl ad-Dīn Rūmī (1207-1273) compõe o Masnavī, magnum opus poético do sufismo.
Doutrinas e ordens
A doutrina central é a tawhīd: Deus é Um, e a realização desta unidade não é só credo mas experiência directa. O caminho (ṭarīqa) tem estações (maqāmāt) e estados (aḥwāl): arrependimento, renúncia, pobreza, paciência, confiança, satisfação, amor, conhecimento, unidade. O praticante é murīd (aspirante); o mestre é shaykh (ou pīr em persa). A iniciação faz-se por transmissão directa (silsila, cadeia ininterrupta que remonta ao Profeta).
O sufismo organiza-se em confrarias ou ṭuruq (sing. ṭarīqa, «caminho»). As principais: Qādiriyya (Abd al-Qādir al-Jīlānī, séc. XII), Naqshbandiyya (Bahā al-Dīn Naqshband, séc. XIV, central na Ásia Central), Chishtiyya (Khwaja Muʿīn al-Dīn Chishti, séc. XII, central no subcontinente indiano), Shādhiliyya (Abū al-Hasan al-Shādhilī, séc. XIII, central no Magrebe), Mawlawiyya ou Mevlevi (Rūmī, séc. XIII, célebre pelos dervixes giradores), Bektashiyya (Anatólia, ligada aos janíçaros). Cada confraria tem práticas, vestes, recitações próprias.
Na prática
A prática central é o dhikr (ذِكْر, «recordação»): repetição de fórmulas sagradas — os 99 nomes de Deus, a profissão de fé («lā ilāha illā Allāh», «não há deus senão Deus»), ou orações curtas — em voz alta ou silenciosa, individualmente ou em assembleia (ḥaḍra). O ritmo, a respiração, a postura corporal e a presença do mestre potenciam a entrada em estados contemplativos. Em algumas ordens (mevlevi), o dhikr acompanha-se de dança giratória — o sema — em que o derviche, com vestido branco e chapéu alto, gira em torno do próprio eixo símbolo do cosmos em torno de Deus.
Outras práticas: khalwa (retiro solitário, tipicamente quarenta dias), murāqaba (meditação silenciosa, vigilância do coração), samāʿ (audição de música sufi), recitação poética (Rūmī, Hāfiz, Yūnus Emre). A poesia sufi é em si veículo de contemplação. Cada confraria mantém também cantos litúrgicos (qawwāli no subcontinente indiano, ilahi na Turquia, mawlawiyya em árabe). O sufismo é hoje praticado por dezenas de milhões em todo o mundo islâmico e tem comunidades crescentes no Ocidente. Vê Alquimia, Gnosticismo, glossário.
Profundidade simbólica
O sufismo introduziu na espiritualidade mundial uma das mais altas teologias do amor divino. Não amor de Deus pelos benefícios, nem por temor das punições, mas amor desinteressado — maḥabba — que culmina em ʿishq, paixão arrebatadora pelo Amado. Esta linguagem amorosa, exuberante na poesia de Rūmī e Hāfiz, escandalizou ortodoxos rigorosos mas seduziu mil anos de leitores em toda a humanidade. A imagem clássica é a do Amante consumido na chama do Amado, ou da gota que se dissolve no oceano sem perder a sua essência.
A relação com outras tradições mísiticas é fecunda. O sufismo cruzou-se com o gnosticismo (escola de Bagdade), com a alquimia (Jabir ibn Hayyan era também sufi), com o neoplatonismo (Ibn Sina, Suhrawardi). Influenciou o cristianismo ibérico medieval (Ramón Lúlio, São João da Cruz têm ecos), o hinduísmo bhakti (Kabir, Nanak), e modernamente o Ocidente através de Idries Shah, Inayat Khan, René Guénon (convertido), Frithjof Schuon. Vê Rosacruzes, /glossar.
Também conhecido como
- Tasawwuf
- Mística Islâmica
- Caminho dos Dervixes
- Esoterismo Muçulmano
- Sufiyya