Esoterismo

Hermes Trismegisto

Hermes Trismegisto («três vezes grande Hermes», do grego Trismégistos) é a figura mítica fundadora do hermetismo, síntese sincrética entre o deus grego Hermes — mensageiro divino, psicopompo, patrono da magia, da escrita e dos viajantes — e o deus egípcio Tot, senhor da palavra criadora e da sabedoria. A tradição atribui-lhe o Corpus Hermeticum, o Asclepius, a Tábua de Esmeralda e milhares de outros tratados de astrologia, alquimia e magia. Durante mais de mil anos, foi considerado um sábio egípcio antiquíssimo, contemporâneo ou anterior a Moisés.

Origem

A figura nasce no Egito helenístico, no encontro entre a religião faraónica e a cultura grega após a conquista de Alexandre (332 a.C.). Os gregos identificaram o egípcio Tot (deus íbis, escriba dos deuses, inventor da escrita hieroglífica e dos números) com o seu Hermes. A epíteto «três vezes grande» (ter maximus em latim) aparece numa inscrição de Esna (Egito) já no séc. III a.C., aplicada a Tot. As três grandezas seriam: filósofo o maior, sacerdote o maior, rei o maior — ou então uma referência a três encarnações sucessivas do mesmo sábio.

Os textos hermético-filosóficos formam-se em Alexandria entre o séc. I e III d.C. Cristãos como Lactâncio (séc. IV) e Agostinho (séc. V) reconheceram em Hermes um sábio pré-cristão profetizando indiretamente o Cristo, o que protegeu os textos do destino doutros corpus pagãos. O Corpus Hermeticum chegou à Europa quando Cosme de Médici, em 1463, pediu a Marsilio Ficino que o traduzisse antes dos diálogos de Platão. Esta tradução latina, publicada em 1471, foi um dos eventos intelectuais decisivos do Renascimento.

Doutrina

Os textos atribuídos a Hermes apresentam uma cosmologia neoplatónica colorida de gnose: o Uno (o Bem, o Pai) emana o Nous (Intelecto divino), que produz o Lógos, do qual procede a alma do mundo, e desta a multiplicidade dos seres. O ser humano é criado à imagem do Nous e contém no seu centro uma centelha divina que o destina a regressar à origem. Esta «via de regresso» (gnosis) faz-se por iluminação interior, pela purificação das paixões, pelo conhecimento das correspondências cósmicas, pela contemplação dos astros.

Os tratados mais famosos são o Poimandres (primeiro do Corpus, onde Hermes recebe uma visão cosmogónica de um ser luminoso chamado «O Pastor dos Homens»), o Asclepius (preservado em latim, descreve o homem como «grande milagre» capaz de divinização), e a Tábua de Esmeralda (texto curtíssimo, mas cuja fórmula «assim acima, assim abaixo» define toda a alquimia ocidental). O conjunto desenha um humanismo religioso muito particular: o homem como microcosmos, ponte entre céu e terra, chamado a despertar a divindade que dorme nele.

Na prática

A invocação de Hermes Trismegisto foi central nas práticas mágicas e teúrgicas renascentistas. Ficino dedicou-lhe um culto privado; Cornelius Agrippa, nos seus Três Livros de Filosofia Oculta (1531-1533), apoiou-se nele para reconstruir uma magia natural cristianizada; John Dee, mago da rainha Isabel I, conduziu operações angelológicas inspiradas em Hermes. O mago hermético renascentista procura, pelas correspondências astrais e simpáticas, captar e canalizar as energias divinas que descem pelos astros.

Hoje, a prática «hermética» reduz-se geralmente à leitura meditativa dos textos. Recomenda-se ler o Corpus Hermeticum (existem boas traduções), abordar com calma a Tábua de Esmeralda (cada frase merece dias de reflexão), e estudar os sete princípios do Kybalion. Mais importante do que a erudição, porém, é o «estado de espírito hermético»: ver o mundo como um livro de signos, atento às correspondências, às sincronicidades, aos pequenos sinais. Ver também Hermetismo, Tábua de Esmeralda e Alquimia. Mais no Glossário.

Profundidade simbólica

Hermes Trismegisto simboliza o conhecimento que atravessa as fronteiras: entre línguas (grego e egípcio), entre tradições (pagã e cristã, oriental e ocidental), entre planos (divino e humano, celeste e terrestre). É o arquétipo do mediador, do intérprete, do tradutor — não por acaso «hermenêutica», a arte de interpretar, deriva do seu nome. Como o seu antepassado grego, é também o psicopompo: aquele que conduz as almas pelos limiares, dos vivos aos mortos, do conhecido ao desconhecido, da ignorância à gnose.

No tarô, o Mago — primeiro arcano — é a imagem de Hermes: figura em pé com bastão e instrumentos, mediador entre céu e terra, mago da palavra. Os 22 arcanos maiores são, segundo Eliphas Lévi e a tradição esotérica francesa, um «livro hermético» cifrado: cada arcano corresponde a uma letra hebraica e a uma chave universal. Na astrologia, Mercúrio (Hermes romano) rege a comunicação, a inteligência e os signos. Na numerologia, o 3 — número de Hermes Trismegisto («três vezes grande») — é número da síntese e da revelação.

Também conhecido como

  • Trismegistos
  • Tot
  • Mercúrio Trismegisto
  • sábio do Egito
  • mestre dos mestres

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