Mandala
A Mandala (sânscrito मण्डल, «círculo», «disco», «totalidade») é um diagrama simbólico, geralmente circular e centrado, que representa o cosmos, uma divindade, ou a estrutura inteira do ser. Empregue sobretudo no budismo tibetano e nas tradições hindus tântricas, é tanto suporte de meditação como cosmograma e templo simbólico. C. G. Jung adotou o termo para descrever as imagens circulares espontaneamente produzidas pelos seus pacientes em momentos de integração psíquica, identificando-as como manifestação arquetípica do Self — o centro totalizador da personalidade.
Origem
A mandala como objeto ritual tem raízes védicas (os maṇḍala são também os dez livros do Rig-Veda) e desenvolve-se com o tantrismo hindu e budista a partir do séc. VI d.C. No budismo vajrayana tibetano e japonês, as mandalas tornam-se centrais. As mais conhecidas são as duas grandes mandalas do budismo Shingon japonês: a Garbhadhātu («reino-matriz») e a Vajradhātu («reino-diamante»), que representam respetivamente o aspeto compassivo e o aspeto sapiencial da iluminação. No Tibete, mandalas como a de Kālacakra reúnem milhares de elementos.
A introdução da mandala no Ocidente deve-se ao orientalista Giuseppe Tucci (The Theory and Practice of the Mandala, 1949) e, decisivamente, a Carl Gustav Jung. Jung descobriu o termo lendo Richard Wilhelm e Tucci, e identificou nas mandalas tibetanas uma versão sofisticada das imagens centradas que ele próprio desenhava ao longo do seu confronto com o inconsciente (1913-1930, reunidas no Livro Vermelho). Para Jung, a mandala é símbolo natural do Self e aparece em todas as culturas: rosáceas góticas, labirintos, círculos rituais, hieróglifos cosmológicos.
Estrutura
Uma mandala tibetana clássica tem uma estrutura precisa: um quadrado inscrito num círculo (ou num conjunto de círculos concêntricos), com quatro portas orientadas para os pontos cardeais e um centro habitado por uma divindade principal (yidam). O quadrado representa o palácio celeste; os círculos exteriores incluem geralmente o anel de chamas (a sabedoria que queima as ilusões), o anel de vajras (a indestrutibilidade da consciência desperta), o anel de lótus (a pureza) e, por vezes, o anel das oito grandes câmaras funerárias (o desapego total).
No interior, em torno da divindade central, dispõem-se hierarquicamente outras figuras: divindades auxiliares, símbolos rituais, sílabas-semente. Tudo está orientado em relação ao centro: olhar uma mandala é ser conduzido visualmente para o seu coração. As cores não são decorativas: pertencem a um código (branco-pureza-Este, amarelo-aumento-Sul, vermelho-poder-Oeste, verde-ação-Norte, azul-sabedoria-Centro), cada cor associada a uma família búdica e a uma das cinco sabedorias.
Na prática
A prática meditativa com a mandala (maṇḍala-dhyāna) inclui várias etapas. Visualização externa: o praticante contempla a mandala desenhada, deixando o olhar percorrê-la. Construção interna: com os olhos fechados, reconstrói mentalmente a mandala detalhe por detalhe, até a manter estável. Identificação: o praticante visualiza-se ele próprio como a divindade central, no centro do palácio cósmico. Dissolução: tudo se desfaz no vazio luminoso. Estas etapas correspondem ao caminho do sādhana tântrico.
O caso mais espetacular é a mandala de areia tibetana: monges constroem durante semanas, com cores em pó, uma mandala de extraordinária precisão; concluída e consagrada, é deliberadamente destruída numa única gesto — recordação da impermanência. Para uma prática acessível, podes desenhar a tua própria mandala (papel, círculo a compasso, sectores, formas e cores que te chamem): o gesto é já meditativo e revela motivos interiores. Ver também Yantra, Meditação e Teosofia. Mais no Glossário.
Profundidade simbólica
A mandala é, segundo Jung, símbolo natural do Self: o centro totalizador que reúne consciente e inconsciente, masculino e feminino, sombra e persona. O facto de aparecer espontaneamente em sonhos e desenhos em momentos cruciais (crises, transições, recuperações) sugere que é uma estrutura inata da psique. Por isso, Jung dizia, é uma «pedra de toque» do processo de individuação: quando alguém começa a desenhar mandalas, está a ocorrer um movimento de centramento. Pintar mandalas tornou-se prática de psicoterapia e de mindfulness.
No tarô, o arcano O Mundo é uma mandala explícita: figura central, coroa oval, quatro vivos nos cantos. Já o arcano A Roda do Destino é uma mandala dinâmica. Na Cabala, a Árvore da Vida é o mandala ocidental por excelência. Nas grandes rosáceas das catedrais (Chartres, Notre-Dame), no labirinto medieval, no quadrado mágico de Dürer (1514), em todos vemos a mesma intuição: o sagrado tem geometria, e a geometria do sagrado é o círculo centrado.
Também conhecido como
- círculo sagrado
- cosmograma
- diagrama sagrado
- roda mística
- símbolo do Self