Esoterismo

Qi (Chi)

O Qi (chinês 氣, também grafado chi ou ch'i; em japonês ki, em coreano gi) é, na cosmologia chinesa, a energia vital fundamental que constitui e anima tudo o que existe. Está em pedras, plantas, animais, seres humanos, paisagens, astros. É simultaneamente substância e função: tanto «aquilo que circula» como «aquilo que está circulado». A medicina tradicional chinesa, o Tai Chi Chuan, o Qigong, o Feng Shui e a maior parte das artes marciais internas trabalham, cada um à sua maneira, com a circulação, qualidade e equilíbrio do Qi.

Origem

O conceito é arcaico na China e aparece já nos textos clássicos: o Yijing (I Ching, c. séc. IX a.C.), o Dao De Jing de Laozi (c. séc. VI a.C.), o Zhuangzi (séc. IV a.C.) e, fundamentalmente, o Huangdi Neijing ou Cânone Interno do Imperador Amarelo (séc. II a.C.), texto fundador da medicina chinesa. Para esta tradição, o universo emerge do Wuji (vazio originário), polariza-se em Yin e Yang, e a sua interação produz o Qi, que por sua vez se manifesta nos Cinco Elementos (madeira, fogo, terra, metal, água).

No Ocidente, o Qi tornou-se conhecido sobretudo a partir da abertura da China nos anos 1970 e da popularização da acupuntura, do Tai Chi e do Qigong. O sinólogo francês François Jullien, o médico Ted Kaptchuk (The Web That Has No Weaver, 1983) e muitos outros tornaram acessível a lógica chinesa da saúde e da vitalidade. A semelhança com o prana indiano e o pneuma grego é tão notável que muitos defendem uma origem comum ou um arquétipo universal: o sopro vital.

Tipos e canais

A medicina chinesa distingue vários tipos de Qi conforme a função: Yuan Qi (Qi original, herdado dos pais, armazenado nos rins); Zong Qi (Qi reunido no peito, governa respiração e batimento cardíaco); Ying Qi (Qi nutritivo, circula nos meridianos); Wei Qi (Qi defensivo, circula à superfície, protege de patogénios); Zheng Qi (Qi reto, soma de todas as formas, mede a saúde geral). A produção do Qi depende dos alimentos, do ar, da herança parental e do estado emocional.

O Qi circula pelo corpo através de doze meridianos principais (jingluo), cada um associado a um órgão (zang-fu) e a um par horário do ciclo nictemeral. Há ainda oito vasos extraordinários, entre os quais o Du Mai (vaso governador, ao longo das costas) e o Ren Mai (vaso da concepção, ao longo da frente), que formam a «pequena circulação celeste» — semelhante, na sua geometria, à circulação iḍā-piṅgalā-suṣumnā do yoga. Cerca de 360 pontos cutâneos servem de portas de acesso aos meridianos: são os pontos de acupuntura.

Na prática

O Qigong («trabalho do Qi») reúne milhares de exercícios para cultivar e regular o Qi: posturas estáticas, sequências em movimento lento, respirações dirigidas, visualizações. O Tai Chi Chuan é uma das formas mais conhecidas, originalmente arte marcial e hoje sobretudo prática de saúde. A acupuntura e a moxibustão (combustão de Artemísia sobre pontos) atuam diretamente nos meridianos. A fitoterapia chinesa, a dietética e o tuina (massagem) completam o arsenal terapêutico clássico.

O Feng Shui aplica os mesmos princípios à habitação e ao território: um espaço é saudável quando o Qi circula nele harmoniosamente, sem se estagnar (becos, esquinas, desordem) nem dispersar-se demasiado (corredores longos, portas alinhadas). Para começar a sentir o teu próprio Qi, podes praticar o «zhan zhuang» (postura da árvore): em pé, joelhos ligeiramente fletidos, braços em círculo como se abraçasses uma bola, dez a vinte minutos por dia. Ver também Taoismo, Yin-Yang e Bagua.

Profundidade simbólica

O Qi simboliza a unidade subjacente do real. Para a tradição chinesa, não há fronteira ontológica entre matéria e espírito, corpo e mente, indivíduo e mundo: tudo é Qi mais ou menos condensado. Esta visão monista e processual contrasta com o dualismo cartesiano ocidental e oferece uma alternativa interessante: a saúde como circulação, a doença como bloqueio, a sabedoria como fluidez. As próprias emoções são lidas como movimentos do Qi (a ira fá-lo subir, o medo fá-lo descer, a alegria dispersa-o, a tristeza dissolve-o, a preocupação atá-o em nó).

No tarô, a Roda do Destino — com o seu movimento incessante — é uma boa imagem do fluxo do Qi através das transformações. Na astrologia, os signos cardinais (Carneiro, Caranguejo, Balança, Capricórnio) correspondem aos pontos onde o Qi sazonal muda de direção. Em I-Ching, cada hexagrama descreve uma configuração específica do Qi entre céu e terra. E na numerologia chinesa, o número 8 (que se pronuncia ba, parecido com «prosperar») está particularmente associado à circulação benéfica do Qi.

Também conhecido como

  • chi
  • ki
  • energia vital
  • sopro
  • fluxo vital

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