Esoterismo

Tábua de Esmeralda

A Tábua de Esmeralda (latim Tabula Smaragdina) é o texto fundador da alquimia ocidental, atribuído por tradição a Hermes Trismegisto. Brevíssimo — apenas treze versículos —, oferece o resumo mais condensado e enigmático da doutrina hermética. A sua frase mais célebre, «quod est superius est sicut quod est inferius» («o que está em cima é como o que está em baixo»), tornou-se o axioma das correspondências universais, princípio fundador da alquimia, da astrologia e da magia natural.

Origem

A primeira aparição documentada do texto é num tratado árabe do séc. VIII-IX, o Kitāb sirr al-ḫalīqa («Livro do Segredo da Criação») atribuído a Apolónio de Tiana (na realidade compilado por um certo Balīnās). A tradição posterior afirma que a Tábua teria sido encontrada nas mãos do cadáver de Hermes Trismegisto, escondido numa caverna ou pirâmide do Egito, gravada numa lâmina de esmeralda — daí o nome. Versões alternativas dizem que Sara, mulher de Abraão, a teria encontrado na sepultura de Hermes. O original em grego ou egípcio, se alguma vez existiu, perdeu-se.

No séc. XII, a Tábua é traduzida do árabe para o latim por Hugo de Santalla, na Hispânia. Albertus Magnus, Roger Bacon, Tomás de Aquino e os grandes mestres alquimistas medievais (Geber, Arnaldo de Vilanova, Raimundo Lúlio) comentam-na. Isaac Newton, no séc. XVII, traduziu-a pessoalmente para inglês e dedicou-lhe mais páginas dos seus manuscritos alquímicos do que aos Principia. Carl Gustav Jung, no séc. XX, leu-a como símbolo arquetípico do processo de individuação. Continua a ser, hoje, o texto mais citado pela alquimia simbólica.

Conteúdo

Os primeiros versículos afirmam: «Verdadeiro, sem mentira, certo e verdadeiríssimo: o que está em baixo é como o que está em cima, e o que está em cima é como o que está em baixo, para realizar os milagres da Coisa Una». Esta afirmação dupla — «assim acima, assim abaixo» — é o princípio das correspondências: o macrocosmos (universo) e o microcosmos (homem) refletem-se mutuamente; o mundo das estrelas e o mundo terrestre obedecem às mesmas leis; o exterior e o interior são duas faces de uma só realidade.

O texto prossegue descrevendo, em linguagem cifrada, o nascimento da «Coisa Una» da meditação do Uno; a sua passagem por todos os elementos (Sol-pai, Lua-mãe, Vento-portador, Terra-nutriz); a separação cuidadosa da terra do fogo, do subtil do grosseiro; a sua ascensão ao céu e novo descenso à terra, integrando os poderes do alto e do baixo. Termina afirmando: «Por isto serei chamado Hermes Trismegisto, possuidor das três partes da filosofia do mundo inteiro. Acabado está o que disse da operação do Sol». A descrição interpreta-se simultaneamente como receita alquímica e como mapa da evolução espiritual.

Na prática

A Tábua é, sobretudo, um texto para meditar. A prática hermética clássica recomenda lê-la em voz alta, lentamente, deixando cada frase decantar. Pode acompanhar-se com escrita — copiá-la à mão tem efeito singular — e com observação atenta da vida diária à procura de «correspondências»: um sonho que ecoa um evento, uma imagem que regressa, uma sincronicidade. O método é treinar a mente para ler o mundo como um livro de signos analogicamente articulados.

O segundo nível de prática é alquímico no sentido interior. Os «sete princípios» do Kybalion (1908) sistematizam a Tábua. A operação central — «separa a terra do fogo, o subtil do grosseiro, com grande engenho» — é a solve et coagula: dissolver o que está rígido e ainda confuso, coagular o que está disperso. Em termos psicológicos: dissolver os fixismos e coagular as novas integrações. Ver também Hermetismo, Alquimia e Hermes Trismegisto. Mais no Glossário.

Profundidade simbólica

A Tábua é, simbolicamente, uma chave universal: poucas palavras, mas capazes de abrir todas as portas da tradição hermética. O «assim acima, assim abaixo» é o coração da magia simpática (uma erva ligada a Marte cura uma ferida; uma pedra ligada a Vénus atrai o amor), do simbolismo religioso («fez-se Deus homem para que o homem se fizesse Deus», dirá Atanásio), da física copernicana (as mesmas leis em cima e em baixo, o que Newton tornará explícito), da própria psicanálise (o que se passa no inconsciente está em ressonância com o que se passa na consciência).

No tarô, o Mago — com um braço apontando ao céu e outro à terra — é a figura visual da Tábua de Esmeralda. O Mundo, último arcano, mostra a «Coisa Una» realizada. Na Cabala, a fórmula «como acima, assim abaixo» encontra eco no princípio dos «quatro mundos» (Atzilut, Beriah, Yetzirah, Assiah) que se espelham. Na numerologia, o 7 (sete princípios herméticos, sete planetas, sete metais) e o 13 (versículos da Tábua) são números de plenitude e de transformação. A Tábua continua a ser, depois de mil anos, o catecismo do esoterismo ocidental.

Também conhecido como

  • Tabula Smaragdina
  • esmaragdina
  • tabula hermetica
  • verba secretorum Hermetis
  • texto hermético

← Voltar ao Glossário