Mântica

Áugure

O Áugure (latim augur, talvez de avis, ave, e garrire, gorjear) era o sacerdote romano oficialmente encarregado de interpretar os auspicia — os sinais enviados pelos deuses, sobretudo através do voo, do canto e do comportamento das aves. O colégio dos áugures era uma das mais antigas e prestigiadas instituições religiosas de Roma, com poderes constitucionais reais: nenhum acto público — uma guerra, uma eleição, a fundação de uma colónia — podia legitimamente iniciar-se sem o seu parecer favorável. Cícero foi áugure, Júlio César também, e o cargo era vitalício.

Origem

A tradição lendária atribui a fundação do colégio dos áugures a Rómulo, primeiro rei de Roma (séc. VIII a.C.), que ele próprio decidira a fundação da cidade por consulta augural: viu doze abutres voar sobre o Palatino, contra os seis vistos por Remo sobre o Aventino, e por isso lhe coube fundar Roma. O ritual augural derivava da disciplina etrusca — os etruscos eram os grandes mestres da adivinhação na Itália pré-romana — mas Roma sistematizou-o num código próprio, descrito nos Libri Augurales, agora perdidos.

No tempo de Numa Pompílio, segundo rei (séc. VII a.C.), o colégio é formalmente estabelecido com três áugures. Sob a República, o número subiu para nove (lei Ogúlnia, 300 a.C.) e depois para quinze sob Sila. O imperador Augusto reorganizou o colégio em 27 a.C. mantendo-lhe a função ritual mas esvaziando-lhe o poder político real. O cristianismo, a partir do séc. IV d.C., aboliu o cargo, mas a palavra augur deixou descendência: inaugurar (começar sob bons auspícios) e auspicioso conservam a sua memória etimológica.

O ritual augural

O áugure operava num espaço ritualmente delimitado, o templum — palavra que originalmente designava não um edifício mas uma porção do céu recortada com o lituus (bastão curvo do áugure). Voltado a sul ou a leste, traçava uma cruz imaginária no firmamento: leste à esquerda (favorável), oeste à direita (desfavorável); ou inversamente segundo a tradição greco-etrusca. Dentro deste rectângulo celeste, observava as aves: a sua direcção de voo, número, espécie, canto.

As aves dividiam-se em duas categorias: alites, cujo voo era significativo (águia, abutre, falcão), e oscines, cujo canto era significativo (corvo, gralha, pica-pau, coruja). Cada espécie tinha valor próprio: a águia era ave de Júpiter, máximo auspício; o corvo, ave de Apolo, sinal grave; a coruja, ave de Minerva mas presságio funesto se vista durante o dia. Existia também o tripudium: observação de galinhas sagradas a comer — se comiam com avidez derramando grãos, o presságio era favorável. Pulcro Cláudio, em 249 a.C., quando as galinhas se recusaram a comer antes da batalha de Drepano, lançou-as ao mar dizendo «então que bebam» — e perdeu a batalha.

Na prática

A prática augural moderna sobrevive como leitura simbólica do voo e da presença de aves, sem o aparato sacerdotal antigo. É uma das formas mais acessíveis de divinação natural: basta atenção, paciência e algum conhecimento simbólico das espécies. Andorinhas a chegar (Primavera, esperança), corvos em conselho (deliberação importante por vir), águia em voo (vitória, elevação), coruja noturna (sabedoria mas também alerta), pomba branca (paz, reconciliação).

Para te iniciares: escolhe um local fixo (jardim, varanda, parque), uma janela horária regular (amanhecer ou crepúsculo), e regista no caderno durante semanas. Aos poucos, distingues padrões. Lê em paralelo o livro de Pierre Le Loyer ou o moderno Bird Augury de John Hopkins. Vê Ornitomancia, Presságio, Divinação e /orakel. Hub: /mantik.

Profundidade simbólica

A ave é, em todas as culturas, mediadora entre céu e terra — daí a sua eleição como mensageira divina. O áugure não «adivinha» tecnicamente o futuro: ele lê o céu, decifra a vontade dos deuses que se manifesta no movimento das criaturas alas. É leitura semiótica de um cosmos significante. A doutrina augural pressupõe um universo onde nada é trivial: cada voo é mensagem, cada canto é palavra de uma língua mais antiga que a humana.

Esta visão ressurge na ornitologia simbólica medieval (bestiários), no romantismo (Coleridge, The Rime of the Ancient Mariner), e na psicologia profunda: para Jung, as aves são imagens arquetípicas do espírito, da intuição, dos pensamentos que vêm «de fora» (do inconsciente). O áugure é assim o ancestral de todos os intérpretes do simbólico — psicólogos, poetas, leitores de cartas — e a sua arte sobrevive sempre que alguém pára para olhar o céu antes de tomar uma decisão. Vê glossário e Sibila.

Também conhecido como

  • Auspício
  • Auspex
  • Sacerdote dos auspícios
  • Adivinho romano
  • Intérprete das aves

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