Cernunnos
Cernunnos (do gaulês karno-, «chifre», com sufixo divino -onos) é o deus cornudo dos celtas continentais e insulares, senhor dos animais selvagens, da floresta, da fertilidade, da abundância material e da virilidade telúrica. A sua iconografia clássica mostra-o sentado em postura de yoga (pernas cruzadas), com chifres de veado a sair da testa, um torque (colar celta) na mão direita, uma serpente com cabeça de carneiro na esquerda, rodeado por veados, lobos, touros e outros animais. É um dos deuses celtas mais antigos e enigmáticos. Vê Brigid e A Morrigan.
Mito e origem
A única inscrição segura com o seu nome encontra-se no Pilar dos Nautas, um monumento gaulês erigido em Lutécia (Paris) sob o imperador Tibério (séc. I d.C.), descoberto sob a catedral de Notre-Dame em 1711. Numa das faces lê-se «[_]ERNUNNOS» — o «C» inicial é restituído por dedução. Outras representações iconográficas confirmam o tipo: o famoso caldeirão de Gundestrup (séc. II-I a.C., encontrado na Dinamarca em 1891, hoje no Museu Nacional dinamarquês) mostra a cena mais detalhada — figura sentada com chifres, torque, serpente, animais.
A sua origem é provavelmente pré-celta, vinda do fundo neolítico dos cultos do «senhor dos animais» indo-europeu, paralelo distante de Pashupati hindu, de Pã grego, de Faunus romano e da figura proto-celta da Idade do Bronze. Os celtas, povo da Idade do Ferro centro-europeu (cultura de Hallstatt c. 800 a.C., depois La Tène c. 450 a.C.), adotaram-no como uma das suas grandes divindades. Os textos literários celtas — gauleses e irlandeses — não nos chegaram quase nenhuns: tudo o que sabemos vem da arqueologia, da estatuária, da numismática e de poucas inscrições latinas.
Atributos e histórias
A iconografia de Cernunnos é remarcavelmente estável em toda a Gália, Britânia e Renânia, com mais de 50 representações confirmadas: chifres de veado adulto que muda a galhada conforme as estações — símbolo de morte e renascimento cíclicos —, torque dourado emblema da autoridade celta, serpente com cabeça de carneiro (criatura mitológica única, símbolo da fertilidade ctónica e da renovação), animais selvagens em volta. Por vezes derrama moedas ou bagas de uma alforge, símbolo da abundância material que o deus concede.
Não temos mitos narrativos sobre Cernunnos — apenas a sua imagem. Os textos medievais irlandeses, como o Lebor Gabála Érenn e o Mabinogion galês, não o nomeiam diretamente, mas figuras como Conall Cernach («Conall, o Cornudo») e a figura misteriosa do «homem dos bosques» que o herói Cynon encontra em Owain do Mabinogion — sentado num cepo, controlando animais com um cajado — sugerem fortemente uma continuidade. Júlio César, na Guerra das Gálias (séc. I a.C.), menciona um deus celta que identifica com Dis Pater, senhor do submundo e da abundância — possivelmente Cernunnos.
Receção moderna
O renascimento moderno de Cernunnos começou no séc. XIX com o romantismo céltico e a redescoberta arqueológica do caldeirão de Gundestrup. Margaret Murray, antropóloga britânica, propôs nos anos 1920 a tese — hoje contestada — de que o «deus cornudo» seria a divindade central de uma antiga religião pagã europeia, demonizada como diabo pela Igreja medieval. Esta tese foi adotada pela Wicca moderna fundada por Gerald Gardner em 1954, fazendo de Cernunnos uma das figuras principais do paganismo contemporâneo.
Hoje, Cernunnos é venerado por wiccanos, druidas neo-celtas, reconstrucionistas gauleses (movimento Bessus Nouiogalation) e por muitas tradições de neopaganismo. Em literatura fantástica, inspira figuras como o Herne the Hunter, o «cazador salvaje» britânico, e o senhor dos elfos em Tolkien. Em videojogos como The Witcher e Hellblade, ecoa em figuras zoomórficas. Em correspondências esotéricas, ressoa com Pã, com a Lua em Capricórnio, com a virilidade saturnina. No tarot, evoca o Diabo (XV) na sua leitura pagã original (não diabólica) e o Imperador (IV). Faz o teste mitológico.
Profundidade simbólica
Cernunnos é o arquétipo do senhor dos animais e da natureza selvagem. Os seus chifres de veado — que caem todos os anos e crescem maiores — são símbolo cosmogónico de morte e renascimento, paralelos da árvore que perde e refaz as folhas. A sua postura sentada (postura de yoga, ou de meditação em «cinco pontas») coloca-o em correspondência iconográfica surpreendente com Shiva-Pashupati: ambos são «senhores dos animais» em meditação, rodeados de feras. Esta semelhança intrigou Heinrich Zimmer e Mircea Eliade, que viram nela ecos de uma camada espiritual indo-europeia antiquíssima.
Carl Gustav Jung leria Cernunnos como expressão do arquétipo do self instintivo-natural, o «velho sábio» na sua face selvagem e indomada. Robert A. Johnson, em O Rei Pescador, e Robert Bly, em Iron John (1990), retomaram esta figura como modelo de uma masculinidade enraizada na natureza, distinta da masculinidade civilizada-domesticada. Em correspondências alquímicas, é o Mercurius ctónico, o ouro escondido na terra que precisa de ser cortejado, não conquistado. Aprofunda em Brigid, A Morrigan e no Glossário.
Também conhecido como
- Karnonos
- Deus Cornudo
- Senhor dos Animais
- Herne the Hunter
- Conall Cernach