Mitologia

Deméter

Deméter é a deusa grega da terra cultivada, do grão, da agricultura, da maternidade e dos ciclos sazonais. Filha de Crono e Reia, irmã de Zeus, mãe de Perséfone, encarna o luto telúrico e o ressurgimento periódico. Era venerada em Elêusis, sede dos mistérios mais sagrados da Antiguidade, e o seu equivalente romano é Ceres, raiz da palavra cereal.

Mito e origem

O Hino Homérico a Deméter (séculos VII-VI a.C.) narra o mito fundador: enquanto Perséfone, sua filha, colhia flores na planície de Nisa, foi raptada por Hades, que abriu a terra e a arrastou ao submundo. Deméter, em desespero, procurou-a durante nove dias com tochas, vagando pela terra sem comer nem beber. Disfarçada de velha, chegou a Elêusis, onde a rainha Metaníra a acolheu, e tornou-se ama do príncipe Demofonte, tentando torná-lo imortal queimando-lhe a mortalidade no fogo.

Descoberta a verdade, Deméter revelou-se em todo o seu esplendor e ensinou aos eleusinos os mistérios. Continuou a busca até descobrir que Zeus tinha consentido no rapto. Como protesto, fez secar todas as colheitas, ameaçando a humanidade com a fome e, com ela, o fim das oferendas aos deuses. Zeus cedeu, e Hermes trouxe Perséfone de volta, mas como esta havia comido três grãos de romã, ficou obrigada a passar parte do ano no submundo, originando assim as estações. O mito é também transmitido por Apolodoro.

Atributos e histórias

Os seus atributos são as espigas de trigo, a foice, a tocha, o papoula, o cesto de frutos (kalathos) e a serpente. Homero chama-lhe 'a de belas tranças' e 'a venerável'. Para além do mito eleusino, Apolodoro relata o seu amor com o herói Iásion, deitados num campo lavrado três vezes, união da qual nasceu Pluto, o deus da riqueza agrícola. Os Mistérios de Elêusis, celebrados anualmente desde pelo menos o século VI a.C. até 392 d.C., prometiam aos iniciados uma vida bem-aventurada no além.

Cícero, no De Legibus, considerou os mistérios eleusinos a maior dádiva ateniense à civilização. Os iniciados, após procissão de Atenas a Elêusis, participavam em ritos secretos no telestérion, com a revelação de uma espiga de trigo. Carl Kerényi e Walter Burkert reconstruíram parcialmente o ritual: jejum, bebida de cevada com pôejo (kykeon) possivelmente psicoativa, visão da deusa e identificação com Perséfone. Outras festas dedicadas a Deméter incluíam as Tesmofórias, exclusivamente femininas, que celebravam a fertilidade cíclica.

Receção moderna

Bolen, em Goddesses in Everywoman, descreveu o arquétipo Deméter como a mulher maternal, cujo sentido de vida se realiza no cuidado, com a sombra do excesso protetor e da depressão face à perda. Jung viu no mito Deméter-Perséfone o paradigma da iniciação feminina, a tomada de consciência da própria sombra através da filha. A psicologia ecológica de Joanna Macy invoca-a como modelo de luto pela Terra ferida.

O asteroide 1108 Demeter, descoberto em 1929, é usado em astrologia esotérica para identificar dinâmicas de cuidado e ciclos de fertilidade. Na literatura aparece em Tennyson (Demeter and Persephone, 1889), Louise Glück (Averno, 2006) e Madeline Miller. Quem no teste Descobre a tua deidade mitológica obtém Deméter revela vocação para cuidar, paciência cíclica e profundidade emocional.

Profundidade simbólica

No Tarô, Deméter corresponde principalmente à Imperatriz (Arcano III), pela fertilidade soberana e maternidade, e em parte ao Eremita (Arcano IX), pela tocha e o luto solitário. Astrologicamente liga-se ao asteroide Ceres, descoberto em 1801, e ao signo de Virgem (espiga). Na cabala ressoa com a Sephira Binah, a Grande Mãe cósmica.

Simbolicamente, Deméter encarna a terra como sujeito sofredor e os ritmos cíclicos de morte e renascimento. A espiga de trigo, revelada em silêncio aos iniciados, simboliza o segredo de toda a vegetação: morrer para frutificar. Vê o hub do glossário para o complemento Perséfone e outras deidades agrárias.

Também conhecido como

  • Ceres
  • Sito
  • Tesmófora
  • Mãe Grão
  • Eleusina

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