Dioniso
Dioniso é o deus grego do vinho, do êxtase, do teatro, da loucura ritual e da vegetação que morre e renasce. Filho de Zeus e da mortal Sémele, é o único olímpico com mãe humana e o último a entrar no panteão. Representa a dissolução das fronteiras do eu, e o seu equivalente romano é Baco. No Tarô ressoa parcialmente com O Enforcado.
Mito e origem
O mito mais célebre, narrado por Eurípides nas Bacantes (c. 405 a.C.), conta o duplo nascimento de Dioniso. Hera, ciumenta, persuadiu a princesa tebana Sémele, grávida de Zeus, a pedir-lhe que se manifestasse em todo o seu esplendor divino. Zeus apareceu com os raios, e Sémele foi fulminada. Zeus salvou o feto e costurou-o na sua coxa, donde Dioniso nasceu pela segunda vez, divino e completo. Daí o epíteto Dimétor, 'de duas mães'.
Versões órficas e ptolemaicas, transmitidas por Diodoro Sículo no século I a.C., narram outro nascimento: Dioniso-Zagreu, filho de Zeus e Perséfone, foi despedaçado e devorado pelos Titãs, exceto o coração, que Atena salvou. Zeus fulminou os Titãs com raios, e das suas cinzas surgiu a humanidade, mistura de essência titânica (corpo) e dionisíaca (alma). Este mito é base da antropogonia órfica e dos mistérios báquicos, com paralelos em religiões frígias e trácias, regiões de onde o culto provavelmente migrou para a Grécia entre os séculos VIII e VI a.C.
Atributos e histórias
Os seus atributos são o tirso (vara enrolada em hera com pinha no topo), a coroa de hera, o copo (kantharos), a parreira, o leopardo, o touro e o bode. Era acompanhado por um séquito de mainades (mulheres em transe extático), sátiros, silenos e o velho mestre Sileno. Apolodoro relata como ensinou a cultura da vinha ao mortal Icário, que partilhou o vinho com pastores, foi morto por estes ao crerem-se envenenados, e Dioniso o vingou enviando loucura sobre os culpados.
A sua chegada às cidades é frequentemente violenta: nas Bacantes, o rei Penteu de Tebas opõe-se ao culto e é despedaçado pela própria mãe Ágave em frenesi báquico. Em Atenas, instalou-se pacificamente e foi celebrado nas Grandes Dionísias, festival do qual nasceu o teatro ocidental no século VI a.C., com a competição de tragédias inaugurada por Téspis. Casou com Ariadne, abandonada por Teseu em Naxos, e levou-a aos céus, onde a sua coroa se tornou constelação (Corona Borealis).
Receção moderna
Friedrich Nietzsche, em O Nascimento da Tragédia (1872), elevou o dionisíaco a categoria estética fundamental, opondo-o ao apolíneo: o primeiro é dissolução, embriaguez, união coletiva; o segundo é forma, sonho, individuação. Esta dialética influenciou Walter Otto (Dionysos: Mythos und Kultus, 1933), Karl Kerényi e a psicologia arquetípica de James Hillman. Jung viu em Dioniso a força do Self que dissolve estruturas rígidas do ego para permitir renovação.
O asteroide 3671 Dionysus, descoberto em 1984, é usado em astrologia esotérica para indicar capacidade de êxtase e transformação. Em literatura, surge em Hölderlin, Camus (O Mito de Sísifo) e Mary Renault. Cultos contemporâneos neopagãos celebram-no nos equinócios. Quem no teste Descobre a tua deidade mitológica obtém Dioniso revela necessidade de êxtase, sensibilidade artística e capacidade de morrer simbolicamente para renascer.
Profundidade simbólica
No Tarô, Dioniso ressoa com O Enforcado (Arcano XII), pelo sacrifício e suspensão das categorias habituais, com A Morte (Arcano XIII), pela transformação cíclica, e com O Diabo (Arcano XV), pela ligação à matéria e à libertação das amarras morais. Astrologicamente liga-se a Neptuno (dissolução) e a Plutão (regeneração). Na cabala, corresponde a movimentos entre Netzach (paixão) e Yesod (inconsciente).
Simbolicamente, Dioniso encarna a vida zoé, a vida indestrutível que atravessa todos os seres, distinta da bios individual. Morre e renasce como a vinha que se poda no inverno e ressurge na primavera. Vê o hub do glossário para o complemento apolíneo-dionisíaco e outras deidades vegetativas.
Também conhecido como
- Baco
- Bacchus
- Bromio
- Líeo
- Zagreu