Mitologia

Hécate

Hécate é a deusa grega das encruzilhadas, da magia, da bruxaria, da lua e dos espíritos. Titanide pré-olímpica, filha de Pérses e Astéria segundo Hesíodo, é representada com três faces e três corpos, vigilando simultaneamente céu, terra e submundo. No Tarô ressoa com A Lua e a sua imagem influenciou profundamente a feitiçaria ocidental.

Mito e origem

Hesíodo, na Teogonia (c. 700 a.C.), dedica-lhe um hino de louvor invulgarmente longo, descrevendo-a como honrada por Zeus acima de todos os outros deuses, com poderes sobre céu, terra e mar. Esta posição privilegiada sugere origens pré-helénicas, talvez na Cária ou Lícia, regiões da Anatólia onde se documenta culto a uma deusa solitária e poderosa. Em alguns textos é filha de Pérses e Astéria, em outros de Zeus e Astéria, ou ainda de Nyx (a Noite), realçando o seu caráter ctónico.

No Hino Homérico a Deméter, Hécate é a única que ouve o grito de Perséfone ao ser raptada e que depois acompanha Deméter na busca, tornando-se companheira eterna da rainha do submundo. O culto público desenvolveu-se principalmente em hekataia, pequenos altares em forma de coluna tripla colocados nas encruzilhadas e nas portas das casas, onde se deixavam oferendas mensais de pão e peixe na noite de lua nova, ritual chamado deipnon de Hécate.

Atributos e histórias

Os seus atributos são as duas tochas, a chave, o punhal, as cordas, as serpentes e os cães negros, que se diziam uivar quando a deusa se aproximava. A iconografia tripla (Hekate Triformis) aparece pela primeira vez no século V a.C. em Alcmena de Atenas e, segundo Pausânias, foi inventada pelo escultor Alkamenes. As três faces miram três caminhos: passado, presente, futuro; ou lua nova, lua crescente e lua cheia; ou Selene, Ártemis e Perséfone numa tríade lunar.

Eurípides faz dela patronesse da feiticeira Medeia, conforme dramatiza na sua tragédia Medeia (431 a.C.), onde Medeia jura por Hécate, deusa que habita o recesso da sua casa. Os Oráculos Caldaicos, textos teúrgicos do século II d.C., elevam Hécate a alma do mundo, intermediária entre o Uno transcendente e o cosmos sensível. Apolodoro narra também o seu papel na Gigantomaquia, em que matou o gigante Clítio com as tochas. Tardiamente foi identificada com a Trívia romana e absorveu traços de Ártemis e Selene.

Receção moderna

Hécate tornou-se figura central da Wicca, do neopaganismo e da feitiçaria contemporânea, especialmente desde a publicação de The White Goddess de Robert Graves (1948) e dos estudos de Gerald Gardner. Como deusa-tríplice Maiden-Mother-Crone, encarna a fase da sábia anciã, dona da sabedoria sombria. O movimento Reclaiming Witchcraft de Starhawk recuperou-a como guia da iniciação feminina madura.

Jung viu em Hécate o arquétipo da 'velha sábia', representação do inconsciente noturno e mediadora entre o ego e a sombra. O asteroide 100 Hekate, descoberto em 1868, é usado em astrologia esotérica para indicar capacidade de navegar transições e crises. Em literatura, aparece em Shakespeare (Macbeth, 1606), Goethe (Fausto) e na série televisiva American Horror Story: Coven. Quem no teste Descobre a tua deidade mitológica obtém Hécate enfrenta encruzilhadas, lida com luto e abraça o conhecimento oculto.

Profundidade simbólica

No Tarô, Hécate corresponde a A Lua (Arcano XVIII), pela noite, instinto e ciclos, e também ao Eremita (Arcano IX), pela tocha que ilumina o caminho solitário. As suas três faces aludem ainda à Sacerdotisa (Arcano II), guardiã dos mistérios. Astrologicamente liga-se à Lua negra (Lilith) e a Plutão. Na cabala ressoa com Yesod e com a Daath, a Sephira oculta.

Simbolicamente, Hécate encarna o limiar: porta, encruzilhada, lua nova, momento entre. A sua tríplice forma representa a totalidade do tempo apreendida num único olhar. As chaves significam acesso aos planos invisíveis. Vê o hub do glossário para outras deidades ctónicas e a sua articulação com a magia ocidental.

Também conhecido como

  • Trívia
  • Hekate Triformis
  • Soteira
  • Propíleia
  • Crioforós

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