Kali
Kali (sânscrito Kālī, «a negra» ou «a do tempo») é a temível e libertadora deusa do tempo, da morte e da transformação no hinduísmo, manifestação feroz da Mahadevi e forma escura da Shakti. É a face terrível e maternal da Deusa: mãe negra que devora o tempo e dissolve o ego. Tem pele azul-escura ou negra, língua estendida vermelha, quatro braços (uma espada, uma cabeça decapitada, e duas em gestos de bênção e proteção), colar de caveiras ou cabeças (muṇḍamālā) e saia de braços cortados. Dança sobre o corpo deitado do seu esposo Shiva. Vê Shiva e Lakshmi.
Mito e origem
Kali surge nas escrituras hindus a partir do início da era cristã, embora as suas raízes mergulhem em cultos pré-vedicos de deusas-mãe e em tradições tribais da Índia oriental. O Devi Mahatmya (c. séc. V-VI d.C.), parte do Markandeya Purana, é o seu texto fundador: nele, a Deusa Durga, em fúria contra os demónios Chanda e Munda, faz brotar da sua testa Kali, negra, descarnada, de língua sedenta — para os destruir. Os Tantras shaktas, sobretudo a partir do séc. VII-VIII, sistematizam a sua teologia, e cultos em Bengala e Assam fazem dela divindade suprema.
O Mahanirvana Tantra, o Kalika Purana e o Karpuradi Stotra são textos centrais. O Mahabharata menciona-a brevemente, mas é nos cultos tântricos medievais, em Kāmākhyā (Assam) e Kalighat (Calcutá), que Kali se afirma como Deusa absoluta. A cidade de Calcutá (Kālīghāṭ, «escadaria de Kali») leva o seu nome. Para os shaktas, a Deusa é o brahman ele próprio, e Kali a sua face mais alta: aquela que vai além das polaridades do prazer e da dor, do bem e do mal.
Atributos e histórias
O mito mais célebre é o do demónio Raktabīja, «o de semente sanguínea». Cada gota do seu sangue que caía em terra dava origem a um novo Raktabīja. Os deuses estavam impotentes. Kali, então, estendeu a sua imensa língua e bebeu todas as gotas em pleno ar, devorando os demónios à medida que surgiam. Mas, na embriaguez da vitória, começou a dançar tão freneticamente que o universo estremeceu. Para a deter, Shiva deitou-se a seus pés. Quando Kali, dançando, pisou o esposo e o reconheceu, ficou imobilizada na clássica iconografia da deusa de pé sobre o corpo prostrado de Shiva, com a língua de fora em sinal de espanto.
A sua iconografia é uma das mais poderosas e perturbadoras da mitologia mundial. Pele negra ou azul-escura, três olhos, língua vermelha estendida, longos cabelos soltos, colar de caveiras e saia de braços decepados — cada caveira representa um som primordial do sânscrito, e os braços, as ações que ela liberta dos seus apegos. Quatro braços: o superior direito em abhaya mudra (não tenhas medo), o inferior direito em varada mudra (concessão de dádivas), o superior esquerdo segura espada (corta a ignorância), o inferior esquerdo segura uma cabeça decapitada (o ego abolido). Está nua: vestida de digambara, «o que tem o céu por roupa».
Receção moderna
Kali é hoje uma das deusas hindus mais veneradas, sobretudo em Bengala, Assam, Odisha e Tamil Nadu. O grande festival Kali Puja, na noite de Diwali na Bengala, atrai milhões. O santo poeta-místico Ramakrishna Paramahamsa (1836-1886), que viveu como sacerdote no templo de Dakshineswar perto de Calcutá, foi o seu devoto mais famoso na época moderna; ensinava que «Kali é a Mãe — atrás de cada coisa do mundo». A sua discípula Sister Nivedita (Margaret Noble) levou o culto de Kali a um público ocidental.
No Ocidente, Kali fascinou a partir do séc. XIX. Filósofos como Hegel, viajantes como Marco Polo e mais tarde académicos como Heinrich Zimmer e Joseph Campbell ofereceram leituras diversas, por vezes superficiais e exotizadas. O movimento feminista da segunda metade do séc. XX adotou-a como ícone da Deusa não submissa. Em correspondências esotéricas, ressoa com Plutão pelo poder transformador, com a Lua negra, com Saturno. No tarot, ressoa com a Morte (XIII) e a Torre (XVI). Faz o teste mitológico.
Profundidade simbólica
Kali é o arquétipo da Mãe terrível, fase escura e indispensável do arquétipo materno. Carl Gustav Jung dedicou-lhe atenção especial em A Mãe e em seminários sobre o yoga tântrico, vendo-a como manifestação mais alta da Magna Mater: a deusa que cria, alimenta e devora, sem sentimentalismo. Para a sua leitura: temer Kali é temer a verdade última da existência — todas as formas nascem, duram e morrem. Aceitá-la é maturidade espiritual. Marie-Louise von Franz vê-a como a face da Anima «escura» que liberta da fixação em formas demasiado pessoais do divino.
O seu nome — Kālī — vem de kāla, tempo. É a deusa do tempo enquanto agente destruidor, e por isso libertador. O tempo dissolve tudo o que pertence ao falso ego, deixando apenas o que é eterno. Em chave alquímica, Kali é a nigredo total e necessária — o enegrecimento que precede o ouro filosofal. A sua dança sobre Shiva (consciência pura) mostra que a manifestação enérgica (Shakti) é mais ativa do que a consciência estática — mas só funciona quando reconhece o esposo sob os pés. Aprofunda em Shiva, Hel e no Glossário.
Também conhecido como
- Kālī
- Mahākālī
- Dakshina Kali
- Bhadrakāli
- Mãe Negra