Perséfone
Perséfone é a deusa grega da primavera, dos cereais novos e, simultaneamente, rainha do submundo como esposa de Hades. Filha de Zeus e Deméter, é o paradigma da iniciação feminina e do ciclo morte-renascimento. No Tarô ressoa com A Sacerdotisa, e o seu equivalente romano é Proserpina.
Mito e origem
O Hino Homérico a Deméter (séculos VII-VI a.C.) é a fonte mais antiga e detalhada. Perséfone, então chamada Core ('donzela'), colhia flores na planície de Nisa com as filhas do Oceano. Curvou-se para apanhar um narciso particularmente belo, plantado por Gaia com a permissão de Zeus, quando a terra se abriu e Hades a arrastou consigo no seu carro puxado por cavalos negros. Apenas Hécate e Hélio testemunharam o rapto.
Deméter, em luto, procurou-a por nove dias até que Hélio lhe revelou a verdade. Recusando-se a permitir as colheitas, forçou Zeus a um compromisso. Hermes desceu ao submundo, mas Hades, antes de a libertar, ofereceu-lhe três (ou seis) grãos de romã que Perséfone aceitou comer, criando assim um vínculo irreversível com o reino dos mortos. Por isso, deve passar um terço do ano (ou metade, segundo Ovídio nas Metamorfoses) com o esposo, e o resto com a mãe, explicando o ciclo das estações. Apolodoro e Cláudio também transmitem variantes do mito.
Atributos e histórias
Os seus atributos são a romã, o narciso, o papoula, a tocha, a espiga e o galo. Como Core encarna a juventude primaveril; como Perséfone-Rainha encarna a soberania ctónica. A iconografia distingue claramente as duas fases: alegre e florida na superfície, austera e entronizada no submundo. Em alguns vasos áticos do século V a.C. surge ao lado de Hades, recebendo defuntos ilustres como Orfeu e Héracles.
Para além do mito do rapto, Perséfone tem papel ativo no submundo: julga juntamente com Hades, dá ordens, intervém em pedidos. No mito de Orfeu, comoveu-se com a sua música e concedeu o regresso de Eurídice, sob a condição de Orfeu não olhar para trás. No mito de Adónis, disputou com Afrodite o belo jovem, sendo decidido por Zeus que ele passaria um terço do ano com cada uma e o último à sua escolha. Tradições órficas tornam-na mãe de Dioniso-Zagreu, ligando-a ainda mais aos mistérios da regeneração.
Receção moderna
Bolen, em Goddesses in Everywoman, descreveu o arquétipo Perséfone como a mulher recetiva, inicialmente submetida à mãe ou ao parceiro, que através da descida ao submundo torna-se rainha do seu próprio reino interior. A psicologia junguiana interpreta o rapto como tomada de consciência da sombra e da sexualidade adulta. Sylvia Brinton Perera, em Descent to the Goddess (1981), explora o tema da descida feminina.
O asteroide 399 Persephone, descoberto em 1895, é usado em astrologia esotérica para indicar processos de transformação interior, sobretudo em fases de luto, depressão ou casamento. Em literatura, surge em Louise Glück (Averno, 2006), em poemas de Rita Dove e em Madeline Miller. Quem no teste Descobre a tua deidade mitológica obtém Perséfone vive frequentemente uma viagem iniciática, integrando dimensões da sombra e descobrindo poder pessoal a partir da experiência da perda.
Profundidade simbólica
No Tarô, Perséfone corresponde principalmente à Sacerdotisa (Arcano II), guardiã dos mistérios entre dois mundos, e também à Morte (Arcano XIII), pela travessia entre estados. Astrologicamente liga-se à conjunção Lua-Plutão e ao signo de Escorpião. Na cabala, ressoa com a Malkuth, o Reino, que é tanto manifestação como portal para os planos invisíveis.
Simbolicamente, Perséfone encarna o princípio bipolar: floresce e governa o subterrâneo, viva e morta, filha e esposa. Os três grãos de romã são selo do vínculo com a profundidade, indicador de que a iniciação genuína cria laços irreversíveis. Vê o hub do glossário para Deméter, Hades e os mistérios eleusinos.
Também conhecido como
- Proserpina
- Core
- Despoina
- Rainha do Submundo
- Perséfaça