Tradições

Druidismo

O Druidismo designa quer a antiga casta sacerdotal celta dos druidas (séculos pré-cristãos), quer o seu reavivamento moderno como caminho espiritual contemporâneo. Os druidas históricos eram simultaneamente sacerdotes, juízes, conselheiros políticos, médicos, astrónomos e mestres da tradição oral, reverenciados de Gália a Britânia, à Hispânia e à Irlanda. O Druidismo contemporâneo, desde o séc. XVIII, é uma das principais correntes do neopaganismo ocidental, organizado em ordens como o OBOD (Order of Bards, Ovates and Druids) e o ADF (Ár nDraíocht Féin).

Origem

Os druidas históricos são conhecidos sobretudo pelas fontes greco-romanas e irlandesas medievais. Júlio César, em De Bello Gallico VI (séc. I a.C.), descreve-os como casta sacerdotal e judicial dos gauleses, formada por vinte anos de estudo oral em escolas druídicas. Plínio o Velho menciona a sua devoção ao carvalho e ao visco. Estrabão, Diodoro, Tácito, Diógenes Laércio acrescentam dados. Da tradição irlandesa cristianizada (séc. VI-XII) provêm os ciclos mitológicos (Cúchulainn, Fionn) e leis brehônicas que mencionam druidas.

A casta druídica foi perseguida pelo Império Romano (proibição de Tibério e Cláudio, séc. I d.C.), confrontada por Roma na Britânia (massacre de Anglesey por Suetónio Paulino em 60 d.C.) e absorvida pela cristianização posterior na Irlanda e Britânia. O Druidismo contemporâneo nasce no séc. XVII-XVIII em Inglaterra e País de Gales com o renascimento celta. John Toland funda em 1717 a Universal Druid Bond. Iolo Morganwg (Edward Williams, 1747-1826) inventa criativamente — e parcialmente fabrica — a tradição bardo-druídica galesa, fundando o Gorsedd of Bards (1792), parte integrante do Eisteddfod galês até hoje.

Estrutura e correntes

Os druidas históricos organizavam-se em três graus, segundo César e fontes irlandesas: Bardos (poetas, memoristas da tradição), Ovates (videntes, herbalistas, médicos) e Druidas (filósofos, juízes, sacerdotes maiores). Esta tripartição foi retomada pelas ordens druídicas modernas. O OBOD (fundado por Ross Nichols em 1964 no Reino Unido) oferece três cursos progressivos correspondentes aos três graus, por correspondência, ao longo de vários anos. Tem hoje mais de 30.000 membros em todo o mundo.

O ADF (Ár nDraíocht Féin, «o nosso próprio druidismo» em gaélico, fundada por Isaac Bonewits em 1983 nos EUA) é reconstrucionista pan-indo-europeu: combina elementos celtas, nórdicos, eslavos, gregos e vedicos, considerando todos descendentes de uma religião indo-europeia comum. A British Druid Order (Philip Carr-Gomm, derivada do OBOD), a Reformed Druids of North America (RDNA, fundada em 1963 em Carleton College como gozo estudantil que se tornou tradição séria) são outras correntes. A Igreja Druídica francesa, a Druid Network e dezenas de ordens locais completam o quadro. Vê Neopaganismo.

Na prática

A prática druídica contemporânea organiza-se em torno da Roda do Ano celta: oito festas sazonais — Samhain (1 Nov, ano novo, ancestrais), Yule (solstício inverno), Imbolc (1 Fev, Brigid), Ostara (equinócio primavera), Beltane (1 Mai, fertilidade), Litha (solstício verão), Lughnasadh (1 Ago, primeira colheita, Lugh), Mabon (equinócio outono). Os rituais fazem-se ao ar livre quando possível, em círculos de pedras ou clareiras florestais, com invocação dos quatro elementos, dos antepassados e das deidades celtas (Lugh, Brigid, Cernunnos, Dagda, Morrigan).

A divinação druídica usa frequentemente o Ogham, alfabeto antigo irlandês de 20 letras (mais cinco adicionais tardias), cada uma associada a uma árvore sagrada (bétula, sorveira, freixo, amieiro, salgueiro, espinheiro, carvalho, aveleira, macieira, sabugueiro…). As varas de ogham são lançadas como as runas ou retiradas de saco. Outros elementos: o triskel, a tríplice deusa, o caldeirão de inspiração (Awen). Para experimentar oráculos, vê o hub oracular e Runas. Mais em Wicca, Neopaganismo e /glossar.

Profundidade simbólica

O Druidismo contemporâneo é tensão criativa entre história e imaginação. As fontes históricas reais sobre os druidas antigos são fragmentárias — sabemos pouco com certeza. Muito do «druidismo» moderno é, na admissão dos próprios praticantes mais lúcidos (como Philip Carr-Gomm), recriação criativa que aspira ao espírito da tradição sem poder recuperá-la literalmente. Esta consciência distingue o druidismo sério das fantasias românticas: assume a sua condição moderna sem renunciar à ressonância ancestral.

A relação com a paisagem é fundamental. O druida moderno reconhece os landscapes sagrados — Stonehenge, Avebury, Newgrange, Glastonbury, Tara — e os genius loci locais. A relação com o Tarô é frequente em correntes ecléticas; com as Runas, em correntes pan-célticas. A relação com o I Ching aparece em ordens muito sincréticas. Vê Wicca, Neopaganismo e o glossário.

Também conhecido como

  • Druidaria
  • Druidismo Contemporâneo
  • Caminho Druídico
  • Tradição Druídica
  • Druidry

← Voltar ao Glossário