Neopaganismo
O Neopaganismo (ou paganismo contemporâneo) é o conjunto de movimentos religiosos modernos que reavivam ou reconstroem religiões pré-cristãs da Europa e do Mediterrâneo: celtas, germano-nórdicas, greco-romanas, eslavas, bálticas. Distingue-se do wicca (que é uma das suas correntes maiores) por ser termo abrangente. Inclui o Ásatrú e o Heathenry (germano-nórdicos), o Druidismo contemporâneo, a Hellenismós (politeísmo grego), o Religio Romana, o Rodnoveria (eslavo), e muitas outras correntes regionais. Estima-se entre 1 e 5 milhões de praticantes mundialmente.
Origem
O renascimento pagão moderno tem raízes no romantismo do séc. XIX, com o seu fascínio pela antiguidade clássica e pelo folclore nacional. A descoberta da arqueologia pré-histórica, o Romantismo alemão (Goethe, irmãos Grimm, Herder), o renascimento celta na Irlanda (Yeats, Lady Gregory) e o gosto nacionalista pelo folclore local (Lönnrot na Finlândia com a Kalevala) criaram o substrato cultural. O ocultismo do final do séc. XIX (Golden Dawn, Teosofia) acrescentou estrutura ritual e magia.
Os primeiros movimentos reconstrucionistas surgem no séc. XX. Em Inglaterra: a Druid Order e o renascimento bardo-druídico desde o séc. XVIII (Iolo Morganwg), e em 1954 a Wicca de Gardner. Na Islândia: o Ásatrúarfélagið (1972), primeiro grupo Ásatrú reconhecido como religião oficial. Nos EUA: Stephen McNallen funda o Ásatrú Free Assembly (1976); o Druidismo americano expande-se com Isaac Bonewits (Ár nDraíocht Féin, 1983). A onda da contracultura dos anos 60-70, a ecologia profunda, o feminismo da segunda vaga e a internet potenciaram a expansão.
Correntes principais
O Ásatrú (literalmente «fé em Æsir», os deuses nórdicos) cultua Odin, Thor, Freyr, Freyja, Frigga, Heimdall, Tyr e outros. Pratica blót (ritual de oferenda) e sumbel (ritual de bebida sagrada com toasts aos deuses, ancestrais e companheiros). Tem ramificações: Vanatrú (foco em Vanir), Rökkatrú (foco em entidades caóticas). O Heathenry é termo mais geral, incluindo as variedades anglo-saxãs e continentais. As Runas são oráculo central. O Druidismo contemporâneo organiza-se em ordens (OBOD — Order of Bards, Ovates and Druids; ADF — Ár nDraíocht Féin) e celebra oito festas sazonais semelhantes às wicca.
A Hellenismós (Hellenic Reconstructionism) cultua os doze Olímpicos com rituais reconstruídos a partir de fontes antigas, especialmente Hesíodo e Homero. A Religio Romana reaviva o politeísmo romano com Júpiter, Juno, Minerva. O Rodnoveria eslavo cultua Perun, Veles, Mokosh. O Kemetismo ou neopaganismo egípcio retoma Rá, Ísis, Osíris, Hórus. Cada corrente combina reconstrucionismo (fidelidade às fontes históricas) e ecleticismo (adaptação criativa moderna) em proporções variáveis. Vê Wicca, Druidismo.
Na prática
A prática varia conforme a tradição mas tem elementos comuns. Calendário sagrado: oito festas anuais nas tradições celtas/wicca, festas específicas nas outras (Winternights, Yule, Disablot no Ásatrú; festas dos deuses nas tradições greco-romanas). Altar pessoal: imagens ou símbolos dos deuses, oferendas (mel, vinho, água, flores), velas. Magia natural: ervas, cristais, ciclos lunares. Divinação: runas nas tradições nórdicas, ogham (alfabeto celta) nas tradições druídicas, Tarô em muitas correntes eclécticas.
O movimento valoriza a ligação com a terra local — espíritos do lugar (landvættir, genius loci), ancestrais físicos, paisagem sagrada. Esta «encarnação» na geografia distingue-o de movimentos universalistas. Há tensões internas significativas: extrema-direita versus inclusivismo (especialmente em correntes nórdicas, onde grupos étnico-exclusivistas e folkish coexistem mal com grupos universalistas como Heathens Against Hate); reconstrucionismo estrito versus ecleticismo. Vê Wicca, Druidismo, Runas, e o glossário.
Profundidade simbólica
O neopaganismo responde a um desejo profundo do Ocidente contemporâneo: a religação (que é o sentido etimológico de religio) com a natureza, com os ancestrais, com o sagrado encarnado no mundo. Após séculos de monoteísmo abstracto e décadas de secularização, muitos sentem falta de um sagrado local, cíclico, diverso. O neopaganismo oferece deuses específicos, paisagens sagradas, festas sazonais, ritos de passagem encarnados. Não é regresso literal ao passado (impossível) mas reinvenção criativa.
A relação com o Tarô, Runas, I Ching e outros oráculos é frequente: o pagão moderno tipicamente usa um ou vários sistemas adivinhatórios. A relação com a Teosofia é histórica (a Teosofia preparou terreno cultural para o neopaganismo). A relação com a Wicca é parcial: a Wicca é neopaganismo, mas nem todo o neopaganismo é Wicca. Vê Druidismo e o glossário.
Também conhecido como
- Paganismo Contemporâneo
- Neo-Paganismo
- Paganismo Moderno
- Reavivamento Pagão
- Reconstrucionismo Pagão