Esoterismo

Hermetismo

O Hermetismo é a tradição esotérica greco-egípcia atribuída a Hermes Trismegisto, o «três vezes grande Hermes», síntese mítica entre o deus grego Hermes e o egípcio Tot. Tem como núcleo um conjunto de textos da antiguidade tardia (séc. I-III d.C.) — o Corpus Hermeticum, o Asclepius e a Tábua de Esmeralda — e desenvolve-se ao longo de toda a história ocidental como matriz da alquimia, da astrologia, da magia natural e do esoterismo cristão. O Kybalion (1908), texto neo-hermético, codificou-o em sete princípios.

Origem

O hermetismo nasce em Alexandria, no Egito helenístico e romano, entre o século I a.C. e o século III d.C., no encontro fecundo entre religião egípcia, filosofia grega (platonismo médio, estoicismo, pitagorismo), gnose judaica e magia caldaica. Os textos foram redigidos em grego e atribuídos a Hermes Trismegisto, uma figura mítica que reúne Tot (deus egípcio da escrita, da sabedoria e da magia) e Hermes (mensageiro grego, psicopompo, guia das almas). A datação foi estabelecida no séc. XVII pelo filólogo Isaac Casaubon, que mostrou serem textos pós-cristãos, não pré-mosaicos como acreditava o Renascimento.

O Corpus Hermeticum, conjunto de dezoito tratados, foi traduzido do grego para o latim por Marsilio Ficino em 1463 a pedido de Cosme de Médici — antes mesmo dos diálogos de Platão. Esta tradução tem efeitos enormes: o Renascimento florentino lê Hermes como mais antigo que Moisés e como sábio inspirado por Deus. Pico della Mirandola, Giordano Bruno (que pagou com a vida a sua leitura hermética da cosmologia), Robert Fludd, John Dee, Athanasius Kircher continuam a tradição. Frances Yates, no séc. XX (Giordano Bruno and the Hermetic Tradition, 1964), reabilitou o hermetismo como tradição filosófica e científica.

Os sete princípios

O Kybalion (1908), publicado anonimamente sob o nome «Três Iniciados» (provavelmente William Walker Atkinson), sintetiza a doutrina em sete princípios herméticos: 1. Mentalismo — «O Todo é Mente, o Universo é Mental»; 2. Correspondência — «Assim em cima, assim em baixo; assim em baixo, assim em cima»; 3. Vibração — «Nada está em repouso; tudo se move; tudo vibra»; 4. Polaridade — «Tudo é duplo; tudo tem polos; os opostos são idênticos em natureza, diferentes em grau».

Continuando: 5. Ritmo — «Tudo flui, para fora e para dentro; tudo tem as suas marés»; 6. Causa e Efeito — «Toda a causa tem o seu efeito; todo o efeito tem a sua causa; nada escapa à lei»; 7. Género — «O género está em tudo; tudo tem o seu princípio masculino e feminino». Estes sete princípios não estão como tal no Corpus Hermeticum original — são uma sistematização moderna — mas resumem com fidelidade tendências centrais do pensamento hermético clássico: monismo idealista, analogia universal, dinamismo cósmico.

Na prática

O hermetismo prático estende-se aos campos da alquimia (transmutação interior e laboratorial), da astrologia (correspondência entre astros e plantas, metais, órgãos, temperamentos), da magia natural (uso simpático das virtudes das coisas: pedras, plantas, perfumes, talismãs) e da teurgia (rituais de invocação dos princípios divinos). A operação hermética típica baseia-se na ideia de correspondência: ao ajustar um plano (uma erva, um símbolo) com outro (o planeta, a divindade), produz-se um efeito por simpatia.

Para uma prática hermética contemporânea, podes começar por dois exercícios. Primeiro, a meditação dos sete princípios: durante uma semana, escolhe um princípio por dia e observa as suas manifestações no quotidiano. Segundo, o diário de correspondências: regista paralelos entre o teu estado interior e os eventos externos — sonhos, encontros, sincronicidades. O método hermético é ver semelhanças onde a razão analítica só vê separações. Ver também Tábua de Esmeralda, Alquimia e Cabala. Mais no Glossário.

Profundidade simbólica

O hermetismo é uma filosofia da analogia universal: nada está isolado, tudo participa numa rede de correspondências que vai do átomo ao cosmos passando pela alma humana. Esta visão organicista contrasta com o paradigma mecanicista que dominou a ciência moderna a partir de Descartes. Hoje, com o pensamento sistémico, a ecologia profunda e o conceito de «teia da vida» (Capra), reencontram-se intuições herméticas. Pico della Mirandola, no Oratio de hominis dignitate (1486), apresentou o ser humano como microcosmos livre, capaz de se modelar à imagem do que escolhe — ideia hermética que prefigura o humanismo moderno.

No tarô, o Mago é o arcano hermético por excelência: figura semelhante a Hermes-Mercúrio, com os quatro elementos sobre a mesa e o gesto que une céu e terra («assim em cima, assim em baixo»). O conjunto dos 22 Arcanos Maiores é, segundo muitos autores (Eliphas Lévi, Papus, Oswald Wirth), um livro hermético cifrado. Na Cabala cristã (Knorr von Rosenroth, Athanasius Kircher), Hermes encontra a Sefirot. Na astrologia, o planeta Mercúrio é claro patrono. O hermetismo é o subterrâneo comum do esoterismo ocidental.

Também conhecido como

  • corpus hermeticum
  • filosofia hermética
  • tradição de Hermes
  • esoterismo alexandrino
  • kybalion

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