Esoterismo

Nirvana

O Nirvana (sânscrito निर्वाण, páli nibbāna, «extinção», «apagamento») é o estado supremo do budismo: a cessação total do sofrimento (dukkha) e da sede (tṛṣṇā) que mantém os seres aprisionados no ciclo de renascimentos (Samsara). Literalmente, o termo significa «soprar para fora», como se apaga uma chama — apaga-se o fogo do desejo, do ódio e da ilusão. O nirvana não é um lugar nem um estado positivo definível, mas a libertação absoluta de toda a condicionalidade.

Origem

O conceito é central no budismo desde o seu início, ensinado pelo próprio Buda Sakyamuni (séc. VI-V a.C.) como o fim das Quatro Nobres Verdades: existe sofrimento, há uma causa, há uma cessação (nirvana), e há um caminho (o Nobre Caminho Óctuplo). O termo aparece também em textos hindus e jainistas, mas é no budismo que ganha o seu significado mais radical. Buda recusava-se a descrever o nirvana em termos positivos, pois qualquer descrição o coisificaria — diz apenas o que ele não é (impermanência, sofrimento, eu).

No Ocidente, o nirvana chega através das primeiras traduções dos sutras budistas no século XIX (Eugène Burnouf, T. W. Rhys Davids) e da Teosofia de Blavatsky (1875). Schopenhauer foi um dos primeiros pensadores ocidentais a aproximar-se sériamente do conceito. Nos anos 1960-1970, a popularização do Zen (D. T. Suzuki, Alan Watts) e do budismo tibetano (Chögyam Trungpa) tornou o termo familiar, ainda que frequentemente reduzido a um sinónimo vago de «felicidade extrema» — uma simplificação que Buda criticaria.

Os dois nirvanas

A tradição budista distingue dois aspetos do nirvana. O nirvana com resto (sopadhiśeṣa-nirvāṇa) é alcançado em vida pelo arhat ou pelo Buda: os «venenos» (ganância, ódio, ilusão) estão extintos, mas o corpo e a mente continuam a funcionar até à morte natural. O nirvana sem resto (nirupadhiśeṣa-nirvāṇa) ou parinirvāṇa ocorre na morte do iluminado: cessa toda a agregação, dissolve-se o último vestígio de existência condicionada. Buda Sakyamuni entrou no parinirvana aos oitenta anos, em Kushinagar.

No budismo Mahayana (Grande Veículo), a noção evolui: o ideal do bodhisattva é adiar voluntariamente o seu nirvana para ajudar todos os seres a alcançá-lo. Surge a doutrina não-dualista da igualdade entre nirvana e samsara — Nagarjuna (séc. II d.C.) afirma que ambos têm a mesma natureza vazia (śūnyatā). No Vajrayana tibetano, o nirvana é experimentado como a luz clara da mente original, que sempre foi pura. No Zen, é o satori, o despertar súbito que revela a natureza-de-Buda já presente.

Na prática

O caminho prático para o nirvana é o Nobre Caminho Óctuplo: visão correta, intenção correta, palavra correta, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, atenção correta e concentração correta. As três pernas do treino são śīla (conduta ética), samādhi (concentração meditativa) e prajñā (sabedoria). A meditação de vipassanā (insight) e de śamatha (calma mental) são as ferramentas principais. O praticante observa a respiração, os pensamentos e as sensações, descobrindo gradualmente que tudo é impermanente, insatisfatório e sem-eu.

No tarô, o nirvana ressoa em cartas como O Mundo (completude), A Estrela (transcendência luminosa) e O Eremita (sabedoria interior alcançada). Na astrologia, Neptuno e a casa XII descrevem o dissolver-se no oceano cósmico. Na numerologia, o 9 marca o fim do ciclo das unidades, e o número mestre 33 sugere o ideal do bodhisattva. Ver mais no Glossário e em Moksha.

Profundidade simbólica

Simbolicamente, o nirvana é a chama soprada — uma imagem desconcertante para a mente ocidental, habituada a pensar a realização espiritual em termos de plenitude e expansão. Mas «extinção» aqui não significa aniquilação: significa o fim do fogo que queima sem cessar, o fim da agitação compulsiva da mente. O que resta? Buda silencia. As escolas posteriores responderam de modos diferentes: para alguns, resta uma consciência luminosa; para outros, resta apenas a vacuidade (śūnyatā), que não é nada nem alguma coisa.

Encontram-se paralelos no misticismo cristão com a «morte mística» de João da Cruz ou o «não-eu» de Mestre Eckhart, no fanā sufi (a aniquilação no Divino), na henosis de Plotino. Na Cabala, corresponde ao retorno ao Ein Sof, o sem-fim. Em C. G. Jung, o nirvana é frequentemente discutido como um estado de regressão pré-egoica perigosa — Jung mantinha-se cauteloso, defendendo a individuação como integração e não como dissolução. O debate entre integração e dissolução continua vivo. Ver também décima segunda casa.

Também conhecido como

  • extinção
  • iluminação
  • parinirvana
  • cessação do sofrimento
  • libertação budista

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