A Morrigan
A Morrigan (irlandês antigo An Morrígan, «a grande rainha» ou «rainha fantasma») é a deusa celta irlandesa da guerra, da soberania, do destino e da profecia. Aparece com frequência sob a forma de corvo (badb), sobrevoando os campos de batalha onde decide quem morre e quem sobrevive. É deusa tríplice — Morrigan, Macha e Badb, ou Morrigan, Macha e Nemain, conforme as fontes —, associada à terra-soberania e à investidura dos reis legítimos. Pode profetizar e prepara os heróis para a sua sorte. Atua como amante, inimiga ou conselheira do herói Cú Chulainn. Vê Brigid e Cernunnos.
Mito e origem
As fontes principais sobre A Morrigan são os manuscritos medievais irlandeses do Ciclo Mitológico e do Ciclo do Ulster: o Cath Maige Tuired («Batalha de Mag Tuired», séc. IX-XI), o Táin Bó Cúailnge («Raptos das vacas de Cooley», séc. VIII-XI), o Lebor Gabála Érenn e o Metrical Dindshenchas. Pertence aos Tuatha Dé Danann, raça divina pré-Milésia da Irlanda mítica. O seu nome — Mór-Rígan — significa literalmente «grande rainha»; alguns filólogos preferem a etimologia Mor-Rígan, «rainha fantasma» ou «rainha do terror», do indo-europeu *mor-, «morte», «pesadelo».
A sua raiz indo-europeia coloca-a numa linhagem de deusas-guerreiras tríplices: as Erínias gregas, as Nornas nórdicas, as Parcas romanas, as Mātṛkās hindus. Diferentemente das nórdicas Nornas que tecem sem combater, A Morrigan combate e profetiza. A pesquisa de Marie-Louise Sjoestedt em Dieux et héros des Celtes (1940) e os trabalhos posteriores de Proinsias Mac Cana, Miranda Aldhouse-Green e Mary Condren mostraram a sua centralidade no panteão celta como deusa da soberania territorial — quem desposava A Morrigan tornava-se rei legítimo da Irlanda.
Atributos e histórias
O episódio mais famoso é o seu encontro com o Dagda na véspera da segunda batalha de Mag Tuired. Junto ao rio Unius, a deusa estava de pé com uma perna em cada margem, lavando as armas dos guerreiros que morreriam no dia seguinte. O Dagda uniu-se a ela ali mesmo. Em troca, A Morrigan prometeu desabilitar o rei inimigo Indech e profetizou a vitória dos Tuatha Dé. Esta união ritual — deusa-terra com deus-céu — é o paradigma da soberania celta. No Táin, A Morrigan oferece-se ao herói Cú Chulainn, que a recusa por não a reconhecer; ofendida, ela vinga-se atacando-o em forma de enguia, lobo e vaca em pleno combate.
A sua tríade de aspetos — Morrigan, Macha, Badb — corresponde a três faces da função guerreira-profética. Macha é a deusa do território e da corrida (a sua maldição lança sobre os Ulaid os «sofrimentos de parto» nos momentos críticos); Badb («corvo» ou «furiosa») é a deusa que se manifesta como corvo no campo, anunciando ou provocando a derrota com gritos; Nemain («pânico», em algumas listas) é a deusa do terror que toma os exércitos. Por vezes A Morrigan é Anu, Macha e Badb; por vezes Anu/Danu é mãe das três. Esta fluidez tríade-unidade é característica do feminino divino celta.
Receção moderna
A Morrigan entrou na imaginação moderna sobretudo a partir do Renascimento Celta irlandês do séc. XIX (W.B. Yeats, Lady Gregory) e da literatura fantástica do séc. XX. A figura inspirou personagens em romances como The Mists of Avalon (1983) de Marion Zimmer Bradley, em séries televisivas como The Secret Circle, em videojogos como Dragon Age: Origins (2009), onde a personagem Morrigan é figura central — feiticeira ambígua filha de uma bruxa-deusa. A canção The Foggy Dew evoca-a a sobrevoar os campos da Páscoa Sangrenta de 1916.
No neopaganismo, na Wicca e nos reconstrucionismos celtas, A Morrigan tem culto vivo e crescente, especialmente entre mulheres que procuram uma deusa feminina que não seja apenas materna ou amável. É invocada para questões de justiça, defesa, transformação radical, luto e ciclos de morte-renascimento. Em correspondências esotéricas, ressoa com Plutão pela função transformadora, com Marte pela guerra, com a Lua negra pela profecia, com Saturno pelo destino. No tarot, evoca a Morte (XIII), a Torre (XVI) e a Lua (XVIII). Faz o teste mitológico.
Profundidade simbólica
A Morrigan é o arquétipo da rainha fantasma, da soberania feminina que coincide com o destino e com a morte. Carl Gustav Jung dedicou atenção a figuras paralelas — Kali, Hécate, as Nornas — em escritos sobre a Anima «escura» e sobre o arquétipo da Grande Mãe na sua face terrível. Marie-Louise von Franz leu A Morrigan como personificação da via sinistra da individuação: o caminho que passa pela aceitação da própria morte e da própria sombra antes de aceder ao Si-mesmo.
A sua presença como lavadeira no vau (bean-nighe, na variante escocesa) — lavando as armas ou as mortalhas dos que vão morrer — é uma das mais antigas imagens de presciência feminina. Quem a viu, sabia. Esta função profética é dura e necessária: A Morrigan não engana, mas também não consola. A sua união ritual com o Dagda mostra que sem o feminino telúrico não há legitimidade política — princípio que se encontra em todas as monarquias celtas, e que ecoa modernamente em movimentos ecofeministas. Em chave alquímica, é a nigredo em forma régia: o enegrecimento como purificação régia. Aprofunda em Brigid, Hel e no Glossário completo.
Também conhecido como
- An Morrígan
- Morrigu
- Badb Catha
- Macha
- Rainha Fantasma