Mitologia

Brahma

Brahma (sânscrito Brahmā) é o criador do universo na Trimúrti hindu, ao lado de Vishnu (preservador) e Shiva (destruidor). Tem quatro cabeças orientadas aos pontos cardeais — outrora cinco, sendo a quinta cortada por Shiva por um ato de orgulho — e quatro braços que seguram os Vedas, a colher sacrificial, o rosário akṣamālā e o pote de água kamaṇḍalu. Está sentado sobre uma flor de lótus que brota do umbigo de Vishnu, ou monta o cisne (haṃsa) Hamsa. Sua consorte é Saraswati, deusa do conhecimento, da palavra e das artes. Não confundir com Brahman (absoluto neutro). Vê Vishnu e Shiva.

Mito e origem

A origem de Brahma como deus pessoal está nos Brahmanas tardios (c. séc. VIII-VI a.C.), prolongados pelos Upanishads. Surge como personificação do Brahman impessoal, o absoluto sem forma, mas o hinduísmo posterior cuidou de os distinguir: Brahma (com a-longo final) é o deus criador antropomórfico, enquanto Brahman (com a-curto e n) é o princípio absoluto não-dual. A figura completa de Brahma aparece estabilizada nos Puranas, sobretudo no Brahma Purana e no Bhagavata Purana, dos séculos III ao XII.

Curiosamente, apesar do seu papel cosmogónico central, Brahma tem hoje muito poucos templos ativos dedicados ao seu culto exclusivo. O templo de Pushkar, no Rajastão, é o mais famoso e quase único do género. Os Puranas oferecem várias explicações míticas para esta marginalização cultual: uma mentira proferida por Brahma diante de Shiva durante uma disputa cosmogónica, ou um incesto simbólico com a sua filha Saraswati que o teria desqualificado. Estas narrativas refletem provavelmente a passagem histórica da hegemonia bramânica primitiva para os cultos vaishnavas e shaivas medievais.

Atributos e histórias

A iconografia clássica de Brahma é precisa: barba branca, idade venerável, vestes brancas ou cor de açafrão, quatro rostos a olhar para Norte, Sul, Este e Oeste — simbolizando os quatro Vedas, as quatro idades do mundo (yugas) e os quatro varnas (classes sociais). Quatro braços com os Vedas (conhecimento revelado), a colher (sacrifício ritual), o pote de água (origem da criação) e o rosário (tempo cíclico). Senta-se sobre um lótus rosado ou monta o cisne branco Hamsa, símbolo de discernimento porque, segundo a tradição, separa o leite da água.

A cosmogonia bramânica é cíclica em escala vertiginosa. Um dia de Brahma (kalpa) dura 4 320 milhões de anos terrestres, durante os quais quatorze sucessivos Manvantaras se desenrolam, cada um composto de 71 Mahayugas. Quando Brahma dorme (pralaya), o universo dissolve-se; quando acorda, recria-o. A vida de Brahma dura cem anos divinos — 311.040 mil milhões de anos terrestres — após os quais até ele se dissolve no Brahman absoluto. Brahma criou os quatro Kumaras (filhos mentais que recusaram procriar), os sete Saptarishi (grandes sábios) e Manu (primeiro homem).

Receção moderna

Brahma, embora reverenciado em todo o hinduísmo, raramente é foco devocional principal. A sua imagem é mais filosófica e teológica que cultual. No Ocidente, fascinou pensadores como Schopenhauer, que viu na cosmogonia bramânica uma das mais antigas formulações do idealismo. Em literatura, Rabindranath Tagore evocou-o em vários poemas, e Hermann Hesse retomou imagens bramânicas em Siddhartha (1922). Em videojogos como Smite e na série Mahabharat da televisão indiana (1988-1990, 2013), Brahma surge como figura presente mas secundária.

A sua consorte Saraswati, em contraste, tem culto vivo enquanto deusa do conhecimento, da música, da poesia e dos estudos — invocada por estudantes e artistas durante a festa Vasant Panchami. Esta polaridade — Brahma como princípio criador filosófico, Saraswati como prática efetiva do conhecimento — mostra a dinâmica vaishnava entre o teológico abstrato e o devocional concreto. Em correspondências esotéricas, Brahma ressoa com Júpiter, com o número 4, com a roda do tempo. No tarot, evoca o Imperador (IV), a Roda da Fortuna (X) e o Mundo (XXI). Faz o teste mitológico.

Profundidade simbólica

Brahma é o arquétipo do criador como mente cosmogónica. Os seus quatro rostos olham simultaneamente em todas as direções: a totalidade pensada de uma só vez. Esta omnidirecionalidade é, segundo Heinrich Zimmer e Mircea Eliade, marca dos deuses-pensamento das altas culturas — paralelo distante do Janus romano de duas faces e do Quetzalcóatl mesoamericano com vários rostos. Jung leria nele uma personificação do Logos, princípio ordenador, complementar do Eros de Vishnu.

A sua marginalização cultual relativa é tema fascinante. Filósofos hindus modernos como Sri Aurobindo viram-na como sinal de uma verdade espiritual: o criador, uma vez concluída a sua função, recua para deixar viver a criação. Adorar Brahma seria, neste sentido, contemplar o passado cosmogónico; adorar Vishnu, viver no presente da preservação; adorar Shiva, abrir-se à transformação futura. Em correspondências alquímicas, Brahma é o Mercurius philosophorum no momento da prima materia: tudo está nele em potência. Aprofunda em Vishnu, Shiva e no Glossário.

Também conhecido como

  • Brahmā
  • Prajāpati
  • Pitāmaha
  • Hiraṇyagarbha
  • Svayambhū

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