Mitologia

Hermes

Hermes é o deus grego mensageiro, condutor das almas, patrono dos viajantes, dos comerciantes, dos ladrões e dos oradores. Filho de Zeus e da ninfa Maia, encarna o trânsito entre fronteiras, a comunicação rápida e a inteligência ardilosa (mêtis). No Tarô corresponde sobretudo a O Mago, e o seu equivalente romano é Mercúrio, regente do planeta homónimo.

Mito e origem

O Hino Homérico a Hermes (século VII-VI a.C.) é a fonte mais detalhada para a sua biografia mítica. Nasceu numa caverna do monte Cilene, na Arcádia, e ainda recém-nascido escapou do berço para roubar cinquenta vacas do rebanho de Apolo, fazendo-as caminhar para trás para enganar os rastreadores. No regresso encontrou uma tartaruga, com cuja carapaça inventou a lira, primeiro instrumento de cordas. Apolo descobriu o roubo, mas trocou as vacas pela lira, selando assim uma reconciliação fraterna.

O culto de Hermes tem raízes pré-helénicas em pastores e viajantes; nas encruzilhadas erguiam-se os hermai, pilares quadrangulares com cabeça do deus e falo em ereção, marcadores de fronteira atestados desde o século VI a.C. em Atenas. Pausânias relata santuários em Argos, Olímpia e Tegéia. Os Hermaia, festas atléticas e iniciáticas para jovens, celebravam-se em vários pontos do mundo helénico.

Atributos e histórias

Os seus atributos são o caduceu (vara com duas serpentes entrelaçadas), as sandálias aladas (pétasos), o chapéu de aba larga, a tartaruga, o galo e a bolsa de viajante. Homero chama-lhe 'Argifonte' (matador de Argos), por ter executado o guardião de cem olhos que Hera colocara junto à ninfa Io. Como mensageiro dos deuses, viaja entre os três níveis cósmicos, e é o único olímpico que entra e sai livremente do submundo.

A sua função como psicopompo (condutor das almas) é central: leva os mortos até Hades, conforme Homero descreve no canto XXIV da Odisseia, quando guia as almas dos pretendentes. Apolodoro narra o seu papel no resgate de Perséfone e em numerosas missões diplomáticas. Foi pai do híbrido Hermafrodito (com Afrodite) e do bucólico Pã (com a ninfa Dríope). Inventou o alfabeto, os pesos e medidas, a astronomia e os jogos atléticos.

Receção moderna

Jung viu em Hermes o arquétipo do trickster, força criativa que cruza limites e revela verdades por meio do paradoxo e da astúcia. James Hillman, na psicologia arquetípica, sublinhou a sua importância para o estilo 'hermenêutico' do pensar, sempre em trânsito entre sentidos. O termo hermenêutica deriva do verbo grego hermeneúein, interpretar, atividade que tem em Hermes o seu patrono.

Na esoterismo, Hermes funde-se com o deus egípcio Tot e dá origem a Hermes Trismegistos, autor lendário do Corpus Hermeticum e da Tábua de Esmeralda, base do hermetismo alquímico e renascentista. O asteroide 69230 Hermes, descoberto em 1937, é usado em astrologia esotérica para indicar inteligência adaptável. Quem no teste Descobre a tua deidade mitológica obtém Hermes revela versatilidade comunicativa, agilidade mental e gosto pela viagem.

Profundidade simbólica

No Tarô, Hermes corresponde a O Mago (Arcano I), pelo caduceu que une opostos e pela mestria dos quatro elementos, e também a O Louco (Arcano 0), pelo trânsito sem fronteiras. Astrologicamente liga-se diretamente a Mercúrio, regente de Gémeos e Virgem. Na cabala, ressoa com Hod, a Sephira da inteligência verbal e da magia.

Simbolicamente, Hermes encarna a função mediadora universal, princípio do logos em movimento. O caduceu com as serpentes entrelaçadas prefigura a dupla hélice e a alquímica união dos opostos. Vê o hub do glossário para Hermes Trismegistos e o hermetismo esotérico ocidental.

Também conhecido como

  • Mercúrio
  • Mercurius
  • Argifonte
  • Psicopompo
  • Diáctoro

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