Loki
Loki (nórdico antigo Loki, etimologia debatida — possivelmente «nó», «laço» ou «chama») é a figura mais ambígua do panteão nórdico: deus, gigante, irmão de sangue de Odin, pai de monstros e agente do Ragnarök. Mutável de forma e de género, é o trapaceiro (trickster) cósmico que tanto ajuda os Æsir com astúcia como precipita a sua queda. É pai dos três grandes monstros — o lobo Fenrir, a serpente Jörmungandr e a senhora dos mortos Hel — gerados na gigante Angrboða, e mãe do cavalo de oito patas Sleipnir. Vê também Odin, Hel e Ragnarök.
Mito e origem
As fontes essenciais sobre Loki são a Edda em Prosa de Snorri Sturluson (c. 1220) e a Edda Poética, com poemas como o Lokasenna (a discórdia de Loki), o Þrymskviða e o Völuspá. É filho do gigante Fárbauti («o que golpeia com fúria») e da giganta Laufey, irmão de Helblindi e Býleistr. Foi acolhido entre os Æsir por um pacto de fraternidade jurada com Odin, sem ser dos seus. Esta ambivalência genealógica está no centro do seu papel: é Æsir por aliança, jötunn por sangue, e nenhum dos dois plenamente.
Diferentemente da maioria dos deuses nórdicos, não há prova arqueológica clara de culto popular a Loki — não se encontram amuletos, topónimos ou inscrições rúnicas inequívocas. Esta ausência levou estudiosos como Georges Dumézil e Jan de Vries a discutir se Loki teria sido sempre uma figura literária e mítica, sem culto vivo, ou se o seu culto se perdeu. A sua função estrutural, segundo Dumézil, é a do trickster universal, paralelo ao Coiote ameríndio, ao Anansi africano ou ao Hermes grego.
Atributos e histórias
Loki muda de forma e de género com facilidade: torna-se égua para seduzir o garanhão Svaðilfari e dar à luz Sleipnir; pesca como mulher; voa com o manto de penas de falcão de Freya; transforma-se em pulga, em salmão, em foca. As suas façanhas misturam ajuda e dano: corta os cabelos de Sif, esposa de Thor, e em compensação consegue dos anões os grandes tesouros dos deuses (Mjölnir, Gungnir, Skidbladnir, Draupnir, o javali de ouro). Salva Iðunn dos gigantes depois de a entregar a Þjazi.
O ponto de não-retorno é a morte de Baldr, o deus luminoso. Loki descobre que Baldr é vulnerável ao visco, fabrica um dardo e guia a mão do cego Höðr para o lançar. Depois impede a sua ressurreição como a gigante Þökk («agradecimento»), recusando chorar pelo morto. Os Æsir capturam-no, prendem-no com as entranhas do filho Narfi sobre três pedras, e a giganta Skaði pendura uma serpente sobre o seu rosto para lhe pingar veneno até ao Ragnarök. Quando se libertar, conduzirá o exército dos mortos contra os deuses.
Receção moderna
Wagner reduziu Loki a um Loge mesquinho em O Ouro do Reno (1869). Foi a Marvel Comics — Stan Lee e Jack Kirby a partir de 1962 — que reinventou Loki como antagonista carismático, e Tom Hiddleston, nos filmes do MCU a partir de 2011 e na série Loki (Disney+, 2021-2023), elevou-o a anti-herói amado por milhões. Esta versão, embora muito distante das fontes nórdicas, recuperou para o público a complexidade moral do trickster: nem vilão, nem herói, mas catalisador do caos transformador.
No neopaganismo, Loki gera divisão. Algumas correntes Ásatrú recusam venerá-lo por o considerarem agente da destruição; outras, organizadas em torno dos chamados Lokeans, reivindicam-no como deus da mudança, da queer-ness e da subversão necessária. A sua mutabilidade de género tornou-o ícone de comunidades LGBTQ+ pagãs. No tarot, ressoa com o Louco (0) pela liberdade e o caos criativo, e com o Diabo (XV) na sua versão liminar. Faz o teste mitológico ou explora a Freya.
Profundidade simbólica
Loki é o arquétipo do trickster na sua versão escandinava: o que perturba a ordem para a forçar a evoluir. Carl Gustav Jung dedicou-lhe páginas centrais em O fenómeno do espírito no conto e no mito e leu nele a figura do mercurius duplex, ambivalente, indispensável ao processo de individuação: sem o trickster, a psique estagnaria. Marie-Louise von Franz desenvolveu esta linha, vendo no trickster a Sombra coletiva que é necessário integrar para amadurecer.
A sua função cósmica é alquímica: catalisa transformações que os deuses estáveis não conseguem. Sem as suas trapaças, os Æsir não teriam Mjölnir, Sleipnir nem Gungnir. Sem a sua treta, não haveria Ragnarök — e portanto também não haveria o mundo novo que renasce depois. É o agente da morte como passagem. Em astrologia, ressoa com a parte sombra de Mercúrio (mentiroso, ladrão, mensageiro), com Urano (revolução, ruptura) e com Plutão (destruição criadora). Aprofunda em Fenrir (se disponível), Hel e no Glossário completo.
Também conhecido como
- Loptr
- Hveðrungr
- Pai dos Monstros
- Trapaceiro
- Loke