A Estrela
A Estrela (chave XVII) é o décimo sétimo arcano dos 22 Arcanos Maiores. Representa a esperança serena, a inspiração que regressa após a tormenta e a confiança no futuro depois da prova. No baralho Rider-Waite-Smith de 1909 mostra uma mulher nua ajoelhada à beira de um lago, com um pé na água e outro em terra, despejando água de duas jarras — uma na lagoa, outra no solo — sob um céu noturno em que brilha uma grande estrela octogonal amarela rodeada por sete estrelas brancas mais pequenas.
Origem e iconografia
No Visconti-Sforza Tarocchi c. 1450 A Estrela aparece como uma figura nobre que segura uma estrela elevada na mão, evocação da lenda dos magos do Oriente guiados pela estrela de Belém. No Tarot de Marselha do século XVII a iconografia muda radicalmente: uma mulher nua e ajoelhada despeja duas jarras de água — uma para o solo, outra para o rio — sob oito estrelas, sendo a maior central. A nudez sublinha a verdade despida; a água que sai das jarras é sempre dupla e abundante, simbolizando a generosidade renovada da esperança.
A. E. Waite e Pamela Colman Smith, em 1909, conservaram esta iconografia marselhesa mas refinaram-na. A estrela central tem oito pontas, e à volta dela há sete estrelas mais pequenas — possivelmente os sete chakras ou os sete planetas tradicionais. No fundo, sobre a árvore, pousa uma íbis — ave consagrada a Tot, deus egípcio da escrita e da sabedoria. Crowley, no Tarot de Thoth de 1944, manteve o nome The Star e atribuiu-lhe Aquário e a letra hebraica Tzadi (ou Hé, conforme os sistemas), o anzol.
Significado direito e invertido
A direito, A Estrela fala de uma serenidade que regressa depois da queda. Aponta para a esperança não como ilusão mas como confiança que se recupera quando se reconheceu que a torre rebentou e ainda assim a vida continua. Indica fases de cura, inspiração criativa, recuperação da fé numa pessoa, num projeto ou em si próprio. A nudez da figura é importante: já não há armadura nem máscara, é o ser que se mostra como é à luz das estrelas. As águas derramadas no rio voltam ao oceano coletivo; as derramadas em terra alimentam o que cresce em silêncio.
Invertida, A Estrela pode indicar desânimo, perda de fé, dificuldade em ver a luz depois da prova. Pode também mostrar idealizações excessivas, esperança que se recusa a olhar os factos, ou um otimismo que ignora o trabalho concreto necessário. Pergunta-te se o teu desânimo atual é proporcional ao que aconteceu, ou se há um peso antigo que a situação atual reativou. A estrela está sempre lá; o que pode falhar é a tua capacidade de a ver. Em casos práticos sugere refazer o sono, contacto com a natureza e cuidado simples do corpo.
Nas leituras
Quando A Estrela aparece na tua tiragem, observa onde a esperança regressa e que confiança simples queres recuperar. No amor pode indicar a chegada de alguém depois de uma fase difícil, a reconciliação serena depois de uma rutura, ou o renascimento da intimidade num casal que sobreviveu a uma crise. No trabalho aponta para projetos inspirados, vocação que se clarifica, ou retorno a um sonho antigo abandonado. No plano espiritual sugere reencontro com a fé, prática contemplativa serena, e contacto com a natureza como fonte de cura.
Em tiragens ocupa muitas vezes a posição da «esperança» ou da «cura». Lê-a junto às cartas vizinhas: depois de A Torre, mostra que à rutura se segue a serenidade reencontrada; antes de A Lua, sugere que da paz ainda há um trabalho do inconsciente a atravessar. Para questões de cura, fé ou inspiração, o Tarot Rider-Waite oferece imagens limpas; em momentos de reconstrução afetiva, o Tarot do Amor ajuda a focar o coração.
Profundidade simbólica
Numerologicamente, o dezassete reduz a oito — equilíbrio dinâmico, mas em oitava superior, depois de ter atravessado o abismo da Torre. Astrologicamente A Estrela corresponde a Aquário, signo fixo de ar regido por Úrano e Saturno, ligado à inovação coletiva, à amizade e à esperança visionária. Na árvore da vida cabalística atribui-se-lhe o caminho Hé (ou Tzadi, conforme atribuição), que une Netzach a Yesod — o sentimento que se reflete no fundamento do sonho, transformando emoção em visão.
No simbolismo junguiano A Estrela encarna a esperança arquetípica, essa força que não depende de circunstâncias e que reaparece como dom. Pandora, ao fechar a caixa, deixa lá a esperança — força que sobra quando todas as outras forças concretas foram libertadas. Na viagem do herói corresponde ao momento de bênção depois da prova, em que o protagonista recebe um auxílio inesperado vindo do invisível. Dentro dos Arcanos Maiores abre o último trio celeste — Estrela, Lua, Sol — em que o trabalho se torna luminoso.
Também conhecido como
- L'Étoile
- La Stella
- The Star
- Chave XVII
- A Esperança