O Diabo
O Diabo (chave XV) é o décimo quinto arcano dos 22 Arcanos Maiores. Representa as cadeias que escolhemos, a sombra não reconhecida e os apegos que nos prendem ao que pensamos não poder largar. No baralho Rider-Waite-Smith de 1909 mostra Bafomé com asas de morcego, cornos de bode e tocha invertida, sentado num pedestal negro a que estão acorrentados pelo pescoço um homem e uma mulher nus — mas as correntes são largas e poderiam ser tiradas pela cabeça.
Origem e iconografia
No Visconti-Sforza Tarocchi c. 1450 a carta original do Diabo perdeu-se, mas reconstruções e baralhos contemporâneos mostram-no como figura monstruosa com chifres, garras e asas, atormentando pequenos pecadores. No Tarot de Marselha do século XVII aparece como diabo medieval com chifres de bode, asas de morcego, mamas femininas e órgão masculino — figura híbrida que reúne polaridades — segurando uma tocha numa mão e tendo dois pequenos demónios acorrentados pelo pescoço aos pés do pedestal.
A. E. Waite e Pamela Colman Smith, em 1909, transformaram-no em Bafomé à maneira de Eliphas Lévi (1854): cabeça de bode com pentagrama invertido na testa, mão direita erguida em mudra de bênção sombria, mão esquerda baixa segurando tocha invertida. As figuras acorrentadas têm caudas: a do homem termina em chamas, a da mulher em uvas — paralelos invertidos das árvores dos Enamorados (chave VI). Crowley chamou-lhe no Tarot de Thoth de 1944 The Devil e atribuiu-lhe Capricórnio e a letra hebraica Ayin, o olho.
Significado direito e invertido
A direito, O Diabo fala daquilo que te prende e que finges não poder soltar. Aponta para dependências — afetivas, químicas, de poder, de aparência — em que confundes necessidade vital com hábito repetido. Indica também relações em que existe atração intensa mas tóxica, contratos que escravizam, padrões de pensamento que reduzem a tua liberdade real. A imagem central é importante: as correntes são largas, não apertadas. As figuras poderiam tirá-las — escolhem não o fazer, e essa escolha é o verdadeiro tema da carta. Não há demónio externo, apenas servidão consentida.
Invertido, O Diabo costuma ser carta libertadora. Pode indicar o reconhecimento da cadeia, a saída de uma dependência, o fim de uma fase de auto-engano em que se chamava amor à posse e liberdade ao impulso. Pode também, paradoxalmente, mostrar o oposto: piorar a servidão, descer mais fundo na dependência ou negar a sombra com tanto vigor que ela ganha força. Pergunta-te o que estás a chamar pelo nome trocado, e que «correntes» antigas reconheces hoje como leves o suficiente para serem retiradas pela cabeça em vez de continuares a carregá-las.
Nas leituras
Quando O Diabo aparece na tua tiragem, observa que apego te está a custar mais liberdade do que está a dar prazer. No amor pode indicar atração intensa que confunde paixão com obsessão, ou uma relação em que ambos se tornaram cúmplices de um padrão que nenhum quer já mas nenhum corta. No trabalho aponta para emprego que escraviza por salário ou status, ambição que devora a vida pessoal, ou compromissos que assumiste por medo e não por desejo. No plano espiritual sugere o trabalho com a sombra, o reconhecimento honesto do que projetas nos outros.
Em tiragens ocupa muitas vezes a posição da «sombra» ou do «que prende». Lê-o junto às cartas vizinhas: depois de A Temperança, mostra que da integração nasce a coragem para olhar a sombra; antes de A Torre, sugere que se a cadeia não se reconhece, virá a rutura súbita. Para temas de dependência, padrões repetitivos ou trabalho com a sombra, o Tarot Rider-Waite oferece simbolismo direto; em questões de relações intensas, o Tarot do Amor precisa o foco.
Profundidade simbólica
Numerologicamente, o quinze é redução a seis — duplo dos Enamorados, mas em modo invertido: já não é a escolha livre da união mas o vínculo que aprisiona. Astrologicamente O Diabo corresponde a Capricórnio, signo cardinal de terra regido por Saturno, ligado à matéria densa, à estrutura rígida, à ambição que pode tornar-se gaiola. Na árvore da vida cabalística atribui-se-lhe o caminho Ayin, o «olho» que une Tiferet a Hod — o olhar que percebe o real mas pode também fixar-se na ilusão e tornar-se servo dela.
No simbolismo junguiano O Diabo encarna a sombra coletiva e pessoal, tudo o que se rejeitou e se projeta no exterior em forma de inimigo. Reconhecê-la é começar a desfazê-la. Eliphas Lévi via no Bafomé a summa dos opostos — masculino e feminino, animal e humano, divino e terrestre — representação da unidade que o pensamento dualista não consegue sustentar. Dentro dos Arcanos Maiores antecede A Torre: primeiro reconheces a cadeia, depois vem o relâmpago que destrói a estrutura mantida pela mentira.
Também conhecido como
- Le Diable
- Il Diavolo
- The Devil
- Bafomé
- Chave XV