Samsara
O Samsara (sânscrito संसार, «errância», «fluxo contínuo») é o ciclo aparentemente interminável de nascimento, morte e renascimento ao qual todos os seres estão submetidos enquanto não alcançam a libertação. É o oceano da existência condicionada, movido pelo Karma e mantido pela ignorância (avidyā) da verdadeira natureza do real. Sair do samsara — atingir o Moksha ou o Nirvana — é o objetivo supremo de hinduísmo, budismo e jainismo.
Origem
A palavra deriva do sânscrito saṃ- («junto») e sṛ- («fluir», «correr»), significando literalmente «aquilo que flui em conjunto» — o curso contínuo das existências. O conceito surge claramente formulado nos Upanishads (a partir de cerca de 800 a.C.), em particular no Brihadaranyaka Upanishad, que descreve como a alma migra de corpo em corpo segundo as suas ações. A ideia já estava implícita nos hinos védicos sob a forma de «morte recorrente» (punarmṛtyu).
No budismo, Buda Sakyamuni (séc. VI a.C.) faz do samsara o ponto de partida do seu diagnóstico: a vida condicionada é caracterizada pelo sofrimento (dukkha) precisamente porque está aprisionada neste ciclo. As Quatro Nobres Verdades apontam o caminho para sair dele. No Ocidente, o termo chega via Teosofia (Blavatsky, 1875) e populariza-se com a vaga New Age dos anos 1970, sobretudo através de obras como o Livro Tibetano dos Mortos.
A roda da existência
O samsara é tradicionalmente representado pela roda da vida (bhavacakra) tibetana, segurada nas garras de Yama, o senhor da morte. No centro estão os três venenos: ganância (galo), ódio (serpente) e ignorância (porco), que se mordem mutuamente. À volta giram os seis reinos de renascimento: deuses, semideuses, humanos, animais, fantasmas famintos e infernos. Cada reino corresponde a um estado mental dominante. Os doze elos da originação dependente (pratītyasamutpāda) descrevem como o ciclo se autoperpetua.
No hinduísmo, o samsara é menos um castigo do que uma escola: a alma (ātman) experimenta múltiplas formas de existência para acabar por reconhecer-se como idêntica ao Brahman, o Absoluto. Cada vida é uma oportunidade de aprendizagem. No jainismo, o samsara é particularmente longo: a alma pode passar por incontáveis encarnações em formas mínimas (uma planta, um inseto) antes de obter um corpo humano, que constitui a oportunidade rara de libertação.
Na prática
Reconhecer que se está no samsara é o primeiro passo. Os textos clássicos descrevem a vida samsárica como uma roda em que prazer e dor, ganho e perda, fama e descrédito se alternam sem fim — aquilo que o budismo chama os «oito ventos mundanos». A prática consiste em desapegar-se deste fluxo sem o negar: viver no mundo sem ser arrastado por ele. As ferramentas clássicas são a meditação, a observação da impermanência (anicca), o cultivo da virtude e o estudo da sabedoria.
No tarô, A Roda do Destino é a imagem mais direta do samsara: o eterno girar das circunstâncias, com criaturas a subir e a descer. O Enforcado simboliza a inversão de perspetiva que permite ver a roda de fora. Na astrologia, os Nodos Lunares apontam para o eixo kármico que prolonga ou interrompe o ciclo. Saturno é o senhor do tempo cíclico. Mais no Glossário.
Profundidade simbólica
Simbolicamente, o samsara é o sonho coletivo em que todos os seres se movem. É o oceano de Vishnu, sobre o qual o deus dorme deitado na serpente Shesha — cada despertar dele é a criação de um universo. Para a tradição não-dualista (Advaita Vedanta), o samsara não é uma realidade objetiva, mas uma projeção da mente ignorante: dissolver a ilusão é, ipso facto, sair do ciclo. O verso de Nagarjuna ressoa aqui: «samsara e nirvana não são duas coisas» — a libertação não está num outro lugar, mas no reconhecimento.
O samsara encontra paralelos noutras tradições. Na Cabala, o conceito de gilgul descreve a transmigração da alma através de múltiplas vidas até completar a sua retificação. Na filosofia grega, Pitágoras e Platão (no Mito de Er) descrevem a metempsicose. Em C. G. Jung, o samsara corresponde à repetição compulsiva dos complexos não conscientes: enquanto o material psíquico permanece reprimido, regressa sob novas formas. Sair do samsara é tornar consciente o que era inconsciente. Ver também Número da Vida.
Também conhecido como
- ciclo de reencarnações
- roda da vida
- errância existencial
- fluxo das existências
- bhavacakra