Mitologia

Ragnarök

Ragnarök (nórdico antigo Ragnarǫk, «destino dos deuses» ou, segundo outra grafia Ragnarøkkr, «crepúsculo dos deuses») é o fim apocalíptico do mundo na cosmovisão nórdica: a grande batalha em que Æsir, Vanir, gigantes e monstros se aniquilam mutuamente, o sol é devorado, as estrelas caem, o mar engole a terra. Não é, porém, um fim absoluto. Da água sobe uma nova terra verde, sobrevivem os filhos dos deuses (Víðarr, Váli, Móði, Magni), Baldr regressa de Helheim, e dois humanos — Líf e Lífþrasir — emergem das raízes de Yggdrasil para repovoar Midgard. Vê Odin, Yggdrasil e Loki.

Mito e origem

As fontes primárias sobre o Ragnarök são a Edda Poética, sobretudo o Völuspá («profecia da vidente»), recitado por uma völva a Odin que a chama do túmulo, e o Vafþrúðnismál; e a Edda em Prosa de Snorri Sturluson (c. 1220), em particular o Gylfaginning. O Völuspá é provavelmente do século X, composto na charneira entre paganismo agonizante e cristianismo chegado — o que explica algumas ressonâncias bíblicas (terra verde renascida, paraíso recuperado) sem que o esqueleto da narrativa deixe de ser nórdico antigo.

A imagem do fim do mundo seguida de renascimento é arquetípica: o Yuga cíclico hindu, o Ekpyrosis estoico, o Juízo Final cristão-islâmico, o Pachakuti andino. A particularidade nórdica é a fatalidade conhecida: os deuses sabem o que vai acontecer, sabem que vão morrer, e mesmo assim combatem com honra. Esta dignidade trágica, sem esperança de salvação individual, dá à mitologia escandinava um tom existencial único — Heidegger e os existencialistas do século XX leram-na com atenção.

Atributos e histórias

A sequência apocalíptica começa com Fimbulvetr, «o grande inverno»: três invernos sem verão de permeio, em que os homens se matam entre irmãos e as leis ruem. Os astros caem do céu, a terra treme, Yggdrasil estremece, os laços de Loki e de Fenrir partem-se. O barco Naglfar, feito das unhas dos mortos, navega com o exército de Hel. Os filhos de Múspell, comandados por Surtr com a sua espada flamejante, atravessam Bifröst, que se desfaz. Heimdall toca Gjallarhorn. Os Æsir reúnem-se no campo de Vígríðr.

Os duelos são fixados pelo destino. Odin enfrenta Fenrir e é engolido — vingado pelo filho Víðarr, que mata o lobo. Thor combate Jörmungandr, mata-a mas cai envenenado nove passos depois. Freyr enfrenta Surtr, sem espada (entregue ao servo Skírnir), e morre. Tyr e Garmr matam-se mutuamente. Heimdall e Loki idem. Surtr lança então fogo sobre os nove mundos. O sol é engolido pelo lobo Sköll, a lua pelo lobo Hati. Tudo arde. Depois, das águas, sobe uma nova terra verde, fértil, sem precisar de ser semeada. Os campos de Iðavöllr renascem. Os deuses sobreviventes encontram as peças de ouro com que os antigos jogavam, brincos da memória.

Receção moderna

O Ragnarök é uma das narrativas mais influentes da cultura germânica moderna. Richard Wagner adapta-o em O Crepúsculo dos Deuses (1876), última ópera de O Anel do Nibelungo. Friedrich Nietzsche apropria-se do título — Die Götzen-Dämmerung, 1888 — para falar da queda dos ídolos filosóficos. No século XX e XXI, o Ragnarök é cenário recorrente do cinema, do videojogo e da literatura: Thor: Ragnarok (2017), God of War: Ragnarök (2022), série Ragnarok da Netflix (2020-2023), romances de Neil Gaiman e Joanne Harris.

No neopaganismo Ásatrú, o Ragnarök é objeto de leituras múltiplas: para uns, mito ainda futuro; para outros, alegoria psicológica de morte e renovação contínuas; para outros ainda, descrição cíclica do que já aconteceu e voltará a acontecer. Em correspondências esotéricas, ressoa com a Torre (XVI) do tarot, com a Morte (XIII) seguida da Estrela (XVII), e com a Torre Plutoniana. Em astrologia, alinha-se com trânsitos de Plutão e Urano em aspeto duro. Faz o teste mitológico.

Profundidade simbólica

O Ragnarök é o arquétipo do fim que é começo. Não há aqui escatologia linear como na tradição abraâmica nem ciclos sem fim como no kalpa hindu: há um único colapso seguido de uma única renovação, descrita com sobriedade. Carl Gustav Jung leu-o como imagem do processo de individuação no seu momento mais radical — a morte da personalidade antiga para que emerja o Si-mesmo. Eric Voegelin viu nele uma das grandes narrativas civilizacionais da finitude assumida.

A dignidade fatalista dos deuses é a sua lição ética central: saber-se condenado e combater na mesma. Isso fez do Ragnarök referência para a filosofia trágica desde Friedrich Schelling a Albert Camus. Em alquimia, corresponde à nigredo total — putrefação universal — seguida de albedo e rubedo num novo ciclo. Em chave ecológica contemporânea, vários autores releem o Fimbulvetr como metáfora antecipada do colapso climático, e a terra verde renascida como esperança ou utopia ambivalente. Aprofunda em Hel, runas e no Glossário completo.

Também conhecido como

  • Ragnarǫk
  • Crepúsculo dos Deuses
  • Götterdämmerung
  • Destino dos Deuses
  • Fim do Mundo Nórdico

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