Mitologia

Tot

Tot (egípcio Djehuty) é o deus egípcio da escrita, da sabedoria, da magia, da lua, do tempo e dos cálculos. Escriba dos deuses, mediador no julgamento dos mortos, inventor das letras e da matemática. Os gregos identificaram-no com Hermes, originando a figura sincrética Hermes Trismegistos. No Tarô ressoa com O Mago.

Mito e origem

Tot é atestado já nos Textos das Pirâmides (c. 2400 a.C.) como deus lunar e escriba real. A sua cidade de culto era Khemenu, conhecida pelos gregos como Hermópolis Magna, no Médio Egito, onde se venerava também a Ogdóade, oito divindades primordiais. Algumas tradições fazem-no nascer da própria cabeça de Hórus (paralelo curioso com Atena saindo de Zeus), outras descreve-no como autocriado, ou ainda filho de Rá nascido sem mãe.

No mito do conflito entre Hórus e Set, narrado em papiros como o Chester Beatty I (XX dinastia, c. 1190-1077 a.C.), Tot atua como árbitro neutro, mediando os 80 anos de disputa pela herança de Osíris. Curou também o olho ferido de Hórus, conhecido como udjat, e o aspeto reconstituído. Esta função reparadora deu-lhe o epíteto Senhor do tempo e dos cálculos: dizia-se que tinha inventado o calendário ao ganhar cinco dias extra à lua em jogo de dados, criando assim o ano de 365 dias.

Atributos e histórias

Os seus atributos são a cabeça de íbis ou de babuíno cinocéfalo, a paleta de escriba com cálamo, a tabuinha, a crescente lunar sobre a cabeça, a pena de escrever. O Livro dos Mortos (c. 1550 a.C.) o representa anotando o resultado do julgamento, sentado ou de pé ao lado da balança. As fórmulas mágicas e os encantamentos médicos egípcios atribuem-se em larga medida aos seus livros, supostamente 42, conteúdo total da sabedoria divina.

A literatura tardia, conservada nos Papiros de Setne Khamwas (séculos III-II a.C.), narra como o príncipe Setne tentou roubar o Livro de Tot da tumba do mago Naneferkaptah, livro que conteria fórmulas para compreender a língua dos animais e ver os deuses. A tentativa traz desgraça, ilustrando o caráter perigoso do conhecimento divino mal usado. Heródoto, no século V a.C., identificou Tot com Hermes, identificação que se aprofundou em Alexandria com a tradução grega Trismegistos ('três vezes grande'), levando ao Corpus Hermeticum dos séculos II-III d.C.

Receção moderna

O hermetismo renascentista, inaugurado pela tradução do Corpus Hermeticum por Marsílio Ficino em 1471, fez de Tot-Hermes Trismegistos o pai da prisca theologia e da alquimia. A Aurora Dourada, Aleister Crowley e os esoterismos modernos retomaram o nome: o Tarot de Thoth, desenhado por Lady Frieda Harris sob direção de Crowley entre 1938 e 1943, é um dos mais influentes do século XX. A Ordem Rosa-Cruz, a Sociedade Teosófica e a Hermetic Society de Londres invocaram-no como mestre dos mistérios.

Jung considerou Tot uma das mais puras encarnações do arquétipo do velho sábio. Em literatura, surge em Plotino, Giordano Bruno, Hermann Hesse e em obras de fantasia contemporânea como Rick Riordan. O asteroide 65803 Didymos tem uma lua chamada Dimorphos, batizada em código de Tot no contexto da defesa planetária. Quem no teste Descobre a tua deidade mitológica obtém Tot revela amor pela palavra, pela investigação metódica, pela magia textual e pela mediação.

Profundidade simbólica

No Tarô, Tot corresponde a O Mago (Arcano I), pela mestria da palavra criadora, e à Sacerdotisa (Arcano II), pelo livro fechado. Astrologicamente liga-se diretamente a Mercúrio e à Lua (pela sua dimensão lunar). Na cabala, ressoa com Hod, a Sephira da inteligência verbal, e secundariamente com Daath, a Sephira oculta do conhecimento.

Simbolicamente, Tot encarna o logos egípcio: a palavra ordenadora que mede, divide, nomeia e regista. O íbis com bico curvo desenha um cálamo natural; o babuíno saúda o sol nascente, ligando-o ao despertar da consciência. Vê o hub do glossário para Hermes Trismegistos e a tradição hermética ocidental.

Também conhecido como

  • Djehuty
  • Tehuti
  • Hermes Trismegistos
  • Mercúrio Egípcio
  • Senhor de Khemenu

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