Hórus
Hórus (egípcio Hor ou Heru) é o deus egípcio com cabeça de falcão, soberano do céu, protetor dos faraós e vingador do pai Osíris. Filho de Ísis e Osíris, encarna a realeza legítima e a justiça restaurada. O seu olho, o udjat, é um dos amuletos mais difundidos no mundo antigo. No Tarô ressoa com O Sol e O Imperador.
Mito e origem
Hórus é uma das mais antigas divindades egípcias, atestada desde o período pré-dinástico (c. 3100 a.C.) na figura de Hórus o Velho (Heru-ur), deus celeste cuja paleta-falcão aparece na Paleta de Narmer, marco da unificação do Egito. Os Textos das Pirâmides (c. 2400 a.C.) identificam-no com o faraó vivo, enquanto Osíris representa o faraó morto. Esta dupla identificação manteve-se ao longo de três milénios: cada novo rei era 'um Hórus' que sucedia a um 'Osíris'.
A versão mais difundida do mito, conservada no papiro Chester Beatty I (c. 1190-1077 a.C.), narra o nascimento de Hórus, o Filho (Heru-sa-Aset), concebido por Ísis a partir do corpo reconstituído de Osíris. Ísis escondeu-o nas marismas de Quemmis (Khemmis) e criou-o em segredo para protegê-lo de Set, irmão e assassino de Osíris. Adulto, Hórus disputou o trono com Set durante oitenta anos, em julgamentos que envolveram todo o panteão. Tot mediou, e Hórus venceu, perdendo um olho na luta mas recuperando-o curado.
Atributos e histórias
Os seus atributos são a cabeça de falcão sobre corpo humano (ou falcão inteiro pousado), a dupla coroa pschent (vermelha do Baixo Egito + branca do Alto Egito), o olho udjat, o cetro uas e o ankh. Existem múltiplas formas: Hórus, o Velho (deus celeste cósmico), Hórus, o Filho (vingador de Osíris), Hórus-Behdety (de Edfu), Hórus-Khenty-Khety, Harsiese, Harpócrates (Hórus criança, dedo na boca), e Hórus-Ra ou Rá-Horakhti, sincretizado com o sol.
O templo de Edfu, no Alto Egito, é o monumento mais bem conservado a ele dedicado, construído entre 237 e 57 a.C. sob os Ptolemeus. Nas suas paredes lê-se o Mito da Vitória de Hórus sobre Set, com a deusa Ísis transformando-se em milhafre para guiar a sua luta. O Olho de Hórus (udjat) tornou-se símbolo de proteção, saúde e visão divina, usado em amuletos desde a IV dinastia. As suas seis partes correspondiam a frações usadas em medicina e matemática (1/2, 1/4, 1/8, 1/16, 1/32, 1/64), somando 63/64; o sexagésimo quarto era acrescentado magicamente por Tot.
Receção moderna
Aleister Crowley, no Liber AL vel Legis (1904), proclamou que se inaugurava o Aeon de Hórus, era cósmica em que o Filho coroado e conquistador substitui o pai morto (aeon de Osíris) e a mãe nutriente (aeon de Ísis). Esta cronologia esotérica, embora não académica, teve enorme influência no ocultismo do século XX. O Olho de Hórus aparece na nota de dólar americana, em logos comerciais e em todo o género de iconografia conspirativa, frequentemente confundido com o triângulo iluminista.
Jung viu em Hórus o arquétipo do filho heroico que vinga o pai, paralelo ao Cristo (paralelo desenvolvido por James Frazer em O Ramo de Ouro) e a Telémaco. Em egiptomania literária surge desde Shakespeare até Christian Jacq. Em videojogos, comparece em Assassin's Creed Origins, Smite e Hades. Quem no teste Descobre a tua deidade mitológica obtém Hórus revela vocação de liderança herdada, sentido de justiça filial e visão estratégica de alturas.
Profundidade simbólica
No Tarô, Hórus corresponde a O Sol (Arcano XIX), pelo brilho do filho legítimo, e ao Imperador (Arcano IV), pela soberania política. A versão Hórus-Behdety do disco solar alado liga-se ainda ao Estrela (Arcano XVII). Astrologicamente representa o Sol em aspeto a Marte (vingança ativa) e Júpiter (legitimidade). Na cabala, ressoa com Tiferet, a Sephira central solar e do filho.
Simbolicamente, Hórus encarna a visão de alturas: o falcão sobrevoa território e vê o que os terrestres não veem. O olho udjat representa a integridade espiritual restaurada após cisão. Vê o hub do glossário para Osíris, Ísis e a tríade osiríaca completa.
Também conhecido como
- Heru
- Hor
- Harsiese
- Harpócrates
- Rá-Horakhti