Bagua
O Bagua (八卦, bāguà, «oito trigramas») é o diagrama octogonal que dispõe os oito trigramas do I Ching em torno do símbolo central do Yin-Yang (Tai Chi). Representa o mapa cosmológico chinês das oito forças primordiais — Céu, Terra, Trovão, Vento, Água, Fogo, Montanha, Lago — distribuídas por oito direcções. Existe em duas configurações canónicas: a Anterior ao Céu (cosmológica, ideal) e a Posterior ao Céu (funcional, prática). Aplica-se em adivinhação, Feng Shui, medicina chinesa e artes marciais internas.
Origem
A tradição atribui o Bagua Anterior ao Céu (Xian Tian Bagua) ao lendário imperador Fu Xi (c. 3000 a.C.). Nesta disposição, Qian (Céu, três Yang) ocupa o sul (topo) e Kun (Terra, três Yin) ocupa o norte (base), em simetria perfeita. Os pares de trigramas opostos no octógono têm linhas mutuamente invertidas, reflectindo equilíbrio cósmico ideal. Esta é a disposição da harmonia primordial, anterior ao mundo manifesto.
O Bagua Posterior ao Céu (Hou Tian Bagua) é atribuído ao rei Wen de Zhou (séc. XII a.C.). Aqui, Li (Fogo) ocupa o sul e Kan (Água) o norte; Zhen (Trovão) o leste e Dui (Lago) o oeste. A disposição reflecte o ciclo das estações e o movimento real das energias no mundo manifesto. É esta a configuração usada no Feng Shui clássico, no I Ching adivinhatório e nas artes marciais internas. Ambas as disposições aparecem no Shuo Gua Zhuan, oitavo dos Dez Asas confucianos.
Estrutura e correspondências
No Bagua Posterior, cada trigrama associa-se a uma área da vida e a uma direcção: Kan (norte) é carreira e percurso de vida (preto, azul); Gen (nordeste) é conhecimento e sabedoria interior (azul, verde); Zhen (leste) é família e novos começos (verde, madeira); Xun (sudeste) é prosperidade e abundância (roxo); Li (sul) é fama e reputação (vermelho); Kun (sudoeste) é relações e parcerias (rosa, terracota); Dui (oeste) é criatividade e filhos (branco, metálico); Qian (noroeste) é mentores e viagens (cinza, prateado).
O centro do Bagua, embora não pertença a nenhum trigrama, representa o Tai Ji (o eixo, o coração de todas as direcções) e está associado à saúde geral, à terra e ao amarelo. Sobrepondo o Bagua a uma planta arquitectónica (habitação, escritório, jardim), identifica-se a zona energética correspondente a cada área da vida. Esta sobreposição pode fazer-se com o método tradicional (orientação pela bússola, Luo Pan) ou pelo método moderno do «Bagua da porta» (popularizado pela escola Black Hat).
Na prática
Para aplicar o Bagua em casa, identifica primeiro a porta principal de entrada (não a do quintal nem da garagem). Coloca o Bagua sobre a planta, alinhado de modo a que a porta caia numa das três zonas inferiores: Kan (centro, carreira), Gen (esquerda, conhecimento) ou Qian (direita, mentores). A partir daí, identifica em que canto da casa fica cada área. Se a zona da prosperidade (Xun, sudeste/canto superior esquerdo na vista de planta) estiver na casa de banho, pode haver «fuga» energética: harmoniza com plantas, espelhos e cores.
O Bagua também se usa em adivinhação directa: marca-se um octógono no chão, atira-se uma moeda ou pedra, lê-se o trigrama em que cai. Variantes incluem amuletos Bagua-espelho usados em portas para repelir energias negativas (prática controversa, em alguns países asiáticos). Para aplicação correcta, conhecer bem cada trigrama é essencial. Vê Trigrama, I Ching, Yin-Yang, o oráculo I Ching e o glossário.
Profundidade simbólica
O Bagua é mais do que diagrama: é mandala cosmológica. Lido como totalidade, integra todas as polaridades — céu e terra, fogo e água, montanha e lago, trovão e vento — num equilíbrio dinâmico em torno do Tai Ji central. Cada trigrama é uma família: Qian é o pai, Kun a mãe, e os outros seis trigramas são os três filhos e as três filhas, segundo a posição do Yin/Yang que neles aparece. Esta antropomorfização revela a visão chinesa do cosmos como família primordial.
A comparação com a Roda do Ano Wicca (oito sabbats em oito direcções do ano), com a Roda da Medicina dos povos indígenas das Américas (quatro direcções, quatro elementos, quatro animais sagrados) ou com a Roda do Zodíaco (12 signos em 12 sectores) revela um padrão arquetípico universal: o mapa octogonal ou dodecagonal das forças cósmicas. Vê Trigrama, Hexagrama, Taoismo e o oráculo I Ching.
Também conhecido como
- Pa Kua
- Bāguà
- Oito Trigramas
- Diagrama dos Oito Trigramas
- 八卦