Tarô de Thoth
O Tarô de Thoth é o baralho concebido por Aleister Crowley e ilustrado por Lady Frieda Harris, criado entre 1938 e 1943 e publicado postumamente em 1969. O nome homenageia Tot, deus egípcio da escrita e da magia, a quem Crowley atribuía origem mítica do tarô. Acompanhado pelo livro teórico The Book of Thoth (publicado em 1944, em vida do autor), constitui uma das mais elaboradas e esoterícamente densas releituras do tarô do século XX, sintetizando cabala, astrologia, alquimia, mitologia egípcia e a sua própria filosofia de Thelema.
Origem
Aleister Crowley (1875-1947), célebre ocultista britânico e fundador da religião de Thelema, era ex-membro da Hermetic Order of the Golden Dawn — a mesma sociedade que produziu A. E. Waite e Pamela Colman Smith. Em 1937, Crowley convidou Lady Frieda Harris (1877-1962), aristocrata inglesa, antroposofista e artista talentosa, para criar com ele um novo baralho. O projeto inicial era uma reedição rápida; tornou-se uma obra de cinco anos de trabalho intenso, com Harris a refazer várias vezes cada uma das 78 cartas conforme as instruções de Crowley.
O baralho ficou pronto em 1943, mas não foi publicado durante a vida de Crowley nem de Harris. The Book of Thoth, o tratado teórico que o acompanha, foi publicado em 1944 numa pequena tiragem. O baralho propriamente dito foi publicado pela primeira vez em 1969, mais de vinte anos após a morte de Crowley, pela Llewellyn Publications. Tornou-se rapidamente um dos baralhos mais influentes do tarô esotérico do século XX, com seguidores em todo o mundo.
Inovações
O Tarô de Thoth introduz várias renomeações nos Arcanos Maiores. The Magus (em vez de O Mago), The Priestess, The Hierophant, Adjustment (em vez de Justiça), Lust (em vez de Força), The Aeon (em vez de O Julgamento), The Universe (em vez de O Mundo). Estas alterações refletem a cosmologia thelémica de Crowley — em particular o «Aeon de Hórus» que segundo ele teria começado em 1904, marcando o fim do «Aeon de Osíris» judaico-cristão.
Nas Cartas da Corte, Crowley substituiu Pajem/Cavaleiro/Rainha/Rei por Princess/Prince/Queen/Knight, com atribuições cabalísticas precisas (Yod-Heh-Vau-Heh do tetragrama divino). Cada arcano menor recebeu um título poético — Dois de Paus = Dominion, Cinco de Copas = Disappointment, Oito de Espadas = Interference. As ilustrações de Harris, em estilo geométrico-alquímico, com sobreposição de planos coloridos, refletem a sua formação em geometria projetiva e teoria dos cubos hipergeométricos. O resultado é visualmente único — denso, abstrato, vibrante.
Na prática
O Tarô de Thoth é considerado um baralho avançado — não recomendado para iniciantes. Exige familiaridade com cabala (caminhos da Árvore da Vida, atribuições de letras hebraicas), astrologia (signos, decanatos, planetas) e o sistema esotérico thelémico. Sem este enquadramento, as imagens são frequentemente herméticas e difíceis de penetrar. Para quem está disposto ao estudo, oferece uma das mais ricas redes simbólicas do tarô moderno.
Quem domina o sistema utiliza o Thoth para tiragens de profundidade espiritual, magia ritual, e trabalho com correspondências esotéricas. As tiragens funcionam — Cruz Celta, Tiragem de Três Cartas, Leitura Anual — mas a leitura é mais «vertical» que «horizontal», focada em conexões esotéricas mais do que em narrativas quotidianas. Para iniciantes recomendamos começar com Rider-Waite ou Marselha, e depois eventualmente passar ao Thoth.
Profundidade simbólica
O Tarô de Thoth é a culminação do sistema esotérico da Golden Dawn, sistematizado e ampliado por Crowley. Cada arcano carrega múltiplas camadas: letra hebraica, caminho da Árvore da Vida, signo zodiacal ou planeta, correspondência com o livro Sefer Yetzirah, princípio alquímico, e correspondência mítica egípcia. Estudar uma única carta do Thoth pode levar dias — e Crowley dedicou capítulos inteiros do Book of Thoth a alguns arcanos.
Lady Frieda Harris foi influenciada por Rudolf Steiner (antroposofia) e por geometria esotérica — algumas das suas composições incorporam projeções de figuras do hiperespaço como tentativa de representar dimensões superiores. As cores são fundamentais: cada carta combina escalas cromáticas precisas, codificadas no sistema das «escalas do rei, da rainha, do imperador e da imperatriz» da Golden Dawn. O Thoth é, em síntese, uma obra de arte total esotérica. Para outros baralhos vê Rider-Waite, Marselha e Lenormand. Mais no glossário.
Também conhecido como
- Thoth Tarot
- Crowley-Harris Tarot
- Tarot de Crowley
- Book of Thoth Tarot
- Tarô Thelémico