Tarot de Marselha
O Tarot de Marselha (em francês Tarot de Marseille) é a tradição iconográfica de tarô mais antiga ainda em uso contínuo, formada em França entre os séculos XVII e XVIII. Distingue-se pela sua estética sóbria — cores planas (vermelho, azul, amarelo, verde), figuras estilizadas, contornos pretos firmes — e por manter os Arcanos Menores como pips sem ilustração narrativa. Foi por séculos o baralho de tarô mais difundido na Europa antes da chegada do Rider-Waite em 1909.
Origem
A origem da tradição de Marselha radica nos tarocchi italianos do século XV (Visconti-Sforza c. 1450, Mantegna 1465). Quando estes baralhos chegaram a França, especialmente após as guerras italianas dos reis franceses no início do século XVI, foram copiados localmente. A cidade de Marselha tornou-se um centro de produção desde o século XVII pela sua tradição de imprensa e gravura, dando o nome à tradição inteira — embora se tivessem produzido baralhos análogos também em Lyon, Avignon e outras cidades.
A versão que se tornou padrão é a do impressor Nicolas Conver, baralho gravado em 1760 em Marselha, ainda hoje reeditado pela editora suíça AGM-Müller e por Jean-Claude Flornoy. Outros baralhos antigos sobreviventes incluem o Jean Dodal (Lyon, 1701) e o Pierre Madenié (Dijon, 1709). Estes três (Conver, Dodal, Madenié) constituem o cânone histórico do Marselha. No século XX, Paul Marteau (1949) e Alejandro Jodorowsky (com Philippe Camoin, 1997) fizeram restaurações importantes.
Características
O Tarot de Marselha distingue-se por várias particularidades. Os 22 Arcanos Maiores têm nomes em francês — Le Bateleur, La Papesse, L'Imperatrice — e a numeração romana é por vezes irregular (XIIII em vez de XIV para a Templança em alguns baralhos). O Louco aparece sem número ou com a abreviatura «MAT» (Mato). A Justiça é classicamente o número VIII, com a Força em XI — ordem que foi invertida posteriormente por Waite no Rider-Waite mas que o Marselha mantém.
Os 56 Arcanos Menores são pips não ilustrados — o Cinco de Espadas mostra cinco lâminas curvas em padrão geométrico, com flores e ornamentos a separá-las, sem cena narrativa. Esta austeridade é ao mesmo tempo dificuldade (não há cena que oriente o iniciante) e profundidade (a leitura repousa em número, naipe e elemento, mais elementar mas também mais flexível). As 16 Cartas da Corte conservam a hierarquia Valet, Cavalier, Reyne, Roy com gestos e posturas codificados.
Na prática
Ler o Tarot de Marselha exige um método ligeiramente diferente do Rider-Waite. Como os pips não têm cena, a leitura repousa em três pilares: o número (numerologia da carta), o naipe (elemento e domínio), e a direção do olhar e do gesto nas figuras. A direção do olhar de uma rainha pode indicar para que carta a sua atenção se dirige na tiragem. As cores também contam: o vermelho indica energia, o azul receptividade, o amarelo iluminação.
O Marselha brilha em tiragens curtas e simbólicas — Carta do Dia, Tiragem de Três Cartas — e em leituras interpretativas mais filosóficas. Para quem começa, é mais difícil que o Rider-Waite, mas oferece treino simbólico mais profundo. Recomenda-se primeiro estudar bem os 22 maiores e depois trabalhar os menores por naipe. O Tarot de Marselha permite consultas online que respeitam esta tradição. Quem quiser comparar pode experimentar também o Rider-Waite ou o Lenormand.
Profundidade simbólica
O Tarot de Marselha conservou estrutura e iconografia praticamente inalteradas durante quase quatro séculos — facto raro em qualquer tradição cultural europeia. Esta continuidade transformou-o num arquivo simbólico precioso, em que cada detalhe (a posição de um pé, a cor de um chapéu, a forma de uma flor) carrega tradição acumulada. Ler Marselha é dialogar com gravadores anónimos do século XVII, com Nicolas Conver de 1760, com Paul Marteau de 1949.
No século XX, Alejandro Jodorowsky dedicou décadas a uma releitura psicanalítica e iniciática do Marselha, formalizada em La Voie du Tarot (2004, com Marianne Costa). Para Jodorowsky, o Marselha é um diagrama do inconsciente, com correspondências precisas entre cores, números, elementos e gestos. Esta leitura situa o baralho como ferramenta espiritual e psicoterapêutica, não apenas adivinhatória. Para outros baralhos vê Rider-Waite, Thoth e Lenormand. Mais no glossário.
Também conhecido como
- Tarot de Marseille
- Tarocchi di Marsiglia
- Marseille Tarot
- TdM
- Tarô Marselhês