Taoismo
O Taoismo (em chinês 道教, dàojiào, «ensinamento do Tao»; ou 道家, dàojiā, «escola do Tao») é uma das três grandes tradições religioso-filosóficas da China, ao lado do confucianismo e do budismo. Fundamenta-se no conceito de Tao (道, «Caminho», «Via»), realidade primordial inefável de que tudo emana e a que tudo retorna. Os seus textos canónicos são o Dào Dé Jīng (道德經, atribuído a Lao Zi, c. séc. VI a.C.) e o Zhuangzi (séc. IV a.C.). O Wu Wei («não-acção», agir sem forçar) é o seu princípio prático cardeal.
Origem
A tradição atribui o Dào Dé Jīng a Lao Zi (老子, «Mestre Antigo»), figura semi-lendária do séc. VI a.C., contemporâneo de Confúcio. Conta a tradição que Lao Zi, descontente com o estado moral do reino, se retirou para o ocidente; ao passar o último posto fronteiriço, o guardião Yin Xi pediu-lhe que deixasse por escrito a sua sabedoria — e nasceu o livro. A datação académica situa a redacção do Dào Dé Jīng entre o séc. IV e III a.C., possivelmente composição colectiva. O Zhuangzi, de Zhuang Zhou (c. 369-286 a.C.), expande e radicaliza poeticamente as intuições laoístas.
O taoismo filosófico (dàojiā) precede e fundamenta o taoismo religioso (dàojiào). Este último organiza-se a partir do séc. II d.C., com Zhang Daoling (séc. II d.C.) e a sua «Escola dos Cinco Pecks de Arroz» (mais tarde Escola do Mestre Celeste, ainda existente em Taiwan). A dinastia Tang (618-907) eleva o taoismo a religião imperial, considerando a família imperial Li descendente de Lao Zi (cujo nome legendário era Li Er). A dinastia Song consolida a sistematização. A revolução cultural maoísta (1966-1976) reprimiu severamente o taoismo, hoje em recuperação na China continental e vivo em Taiwan, Hong Kong, Malásia, Singapura.
Doutrinas e correntes
O Tao é simultaneamente fonte cósmica, princípio ordenador, e caminho de realização. Inefável («o Tao que se pode dizer não é o Tao eterno», abertura do Dào Dé Jīng), manifesta-se na dualidade Yin-Yang e nos «dez mil seres». O Wu Wei (無為, «não-acção» ou melhor «acção sem forçar») é o agir conforme ao Tao — fluir, não resistir, deixar acontecer no momento certo. Não é passividade nem resignação: é eficácia maior pela harmonia com o movimento das coisas.
O taoismo religioso desenvolveu correntes complexas. A alquimia interior (nèidān, 內丹) busca, pela meditação, respiração, postura e visualização, a transmutação dos «três tesouros» — jīng (essência), qì (sopro vital) e shén (espírito) — produzindo o embrião imortal. A alquimia exterior (wàidān, 外丹), hoje quase extinta, buscava elixires de imortalidade com mercúrio, cinábrio, ouro. O taoismo organiza-se em ordens monásticas (Quanzhen, séc. XII, ainda activa) e linhagens domésticas (Zhengyi, Mestres Celestes). Pratica rituais elaborados (jiao), feng shui, medicina chinesa, tai chi chuan e qigong.
Na prática
A prática taoista contemporânea no Ocidente recolhe sobretudo o vocabulário filosófico (Wu Wei, fluir, simplicidade, naturalidade) e técnicas energéticas. Tai Chi Chuan: arte marcial interna lenta e meditativa, hoje praticada por milhões. Qigong: conjunto de exercícios respiratórios e gestuais para cultivar o qi. Medicina chinesa tradicional (acupunctura, fitoterapia, tui na): baseia-se no quadro taoista de yin-yang e cinco elementos. Feng Shui: harmonização de espaços segundo a circulação de qi.
O I Ching é o oráculo taoista por excelência (embora também confuciano), usando os 64 hexagramas para consulta. A meditação taoista inclui zuòwàng (esquecer sentado), shǒu yī (manter o Uno), visualização de deidades internas (cún sī). Para experimentar, lê o Dào Dé Jīng num bom comentário (Wing-Tsit Chan, Stephen Mitchell, Ellen Chen), pratica Tai Chi com instrutor qualificado, consulta o I Ching diariamente. Vê Bagua, Yin-Yang e /glossar.
Profundidade simbólica
O taoismo representa, na história das religiões mundiais, uma posição filosófica única: a espontaneidade sagrada. Onde o confucianismo enfatiza ritual, hierarquia, esforço cultivado, e o budismo enfatiza disciplina, voto, prática metódica, o taoismo enfatiza ziran (自然, naturalidade espontânea), a folha que cai sem esforço, o rio que encontra o seu caminho contornando os obstáculos. Esta «inteligência da natureza» fascinou ocidentais desde os primeiros tradutores jesuítas até aos contraculturais dos anos 60-70 (Alan Watts, Gary Snyder, beats).
A relação com o I Ching é central (o I Ching é matriz cosmológica partilhada com confucianismo). Com o alquimismo ocidental há paralelismo notável: a alquimia interior taoista (neidan) e a Grande Obra europeia partilham simbolismo (drago, fénix, casamento do sol e lua, embrião). Com o sufismo, a similitude do «caminho» (tao = ṭarīqa). Com o paganismo ocidental, a reverência da natureza sagrada. Vê Yin-Yang, Bagua e o I Ching.
Também conhecido como
- Daoismo
- Tao Chia
- Dàojiā
- Caminho do Tao
- Tradição do Tao